Cantada 217

217 – [Um contraponto]   Bom, o que eu tenho para contar não é exatamente uma cantada, mas um relato pessoal de como a minha história de vida influencia a forma como eu lido com elas. Será que isso pode ser publicado?  [R: Claro que pode, tudo dentro da temática pode]  Sempre me considerei feminista. Venho de uma família que definitivamente não é, mas eu já publicava textos feministas em blogs aos 13 anos de idade, e isso nada mais era o que uma forma de expressar coisas que eu já pensava fazia muito tempo, mas que eu não encontrei espaço para colocar na minha vida offline de forma que eu fosse ouvida e respeitada nas minhas opiniões. Elas até hoje não mudaram e eu fico feliz em encontrar um movimento em que essa visão é coletivamente defendida. Mas ainda tenho idéias que vão contra o que de um modo geral é defendido pelo movimento feminista, por isso gostaria de expor algumas inquietações. Porque a visão majoritariamente defendida pelo movimento a respeito de cantadas faz eu me sentir mal… então, quero deixar uma contribuição. Lembro quando eu tinha uns 14 anos, meu pai me perguntou o q eu fazia quando um cara mexia comigo na rua. Eu dizia pra ele que ninguém fazia isso, e ele fala q era mentira, q é claro q mexia. Ele foi só o enésimo a fazer eu me sentir um lixo por não despertar desejo nos homens hetero. Eu insisti q nunca tinha acontecido, mas que se acontecesse, eu mandaria o cara ir tomar no cu. Ele disse q a partir do momento que eu fizesse isso, o cara passaria a estar certo e eu estaria dando razão pra ele! Eu sempre fui muito fora do padrão estético estabelecido pela sociedade de consumo. E sempre me recusei a usar maquiagem, alisar o cabelo, me depilar, fazer a sobrancelha, etc. Eu pensava: eu sou feia, mas quem estabeleceu o que é bonito só tem um objetivo – lucrar me fazendo consumir cosméticos, roupas, sapatos, academia, dietéticos, etc. Então, feia continuarei a ser, com orgulho   Só que a represália social foi bem forte. Mais ou menos a partir dos meus 11 anos começou a cobrança na escola para eu me maquiar, usar bijouterias, furar a orelha, alisar o cabelo… eu não queria gastar com isso, nem dinheiro nem tempo, queria ser aceita do meu jeito. E, principalmente, eu não queria sentir dor. Depilar dói (eu tenho alergia a gilete), furar a orelha dói, salto dói, etc. Quanto mais velha eu fui ficando, mais as coisas pioraram: quando eu menstruei e meu corpo começou a mudar, eu me recusar a me depilar realmente incomodou as pessoas com piadas me chamando de macaca, dizendo que eu sou suja e sem higiene, etc. Enfiavam a minha cabeça na pia da escola para molhar o meu cabelo e deixá-lo com um aspecto liso. Me davam maquiagem de presente no meu aniversário e em outras datas. Nem vou ficar aqui enumerando as violências… Tudo supostamente para o meu bem, é claro. Todos queriam para mim um futuro feliz com um marido, família, etc. E é claro q isso não seria possível se eu mantivesse o meu corpo como a natureza o fez. Porque assim os homens não iriam sentir desejo por mim e eu seria “sozinha, solitária, sem família”, etc e tal. (É claro que a hipótese de eu preferir atrair garotas nunca foi sequer cogitada) Mas eu sempre resisti. Até que finalmente eu cedi aos 18/19 anos. Eu não aguentava mais ver no espelho um corpo que fui ensinada a ver como feio, monstruoso, nojento, sujo, e claro, incapaz de despertar desejo nos homens (que é a primeira coisa que um corpo feminino deveria ser). Tanto porque a minha vida amorosa realmente não ia das melhores, como também porque eu não estava disposta a passar no mercado de trabalho o mesmo que eu passei na minha vida escolar. Na verdade, no começo eu ia nas entrevistas de emprego sem maquiagem, apenas com roupas sociais, mas os entrevistadores perguntavam se eu não usava, se eu tinha alguma coisa contra, porque eu seria “a imagem da empresa aos olhos do consumidor”, e essa imagem, é claro… tinha que ser padrão. A primeira entrevista em que eu passei, não só tive que jurar que iria trabalhar sempre maquiada e tal, como também tive que ouvir da gerente, junto com todas as outras mulheres que passaram no processo seletivo “EU NÃO CONTRATO GENTE FEIA. Todas vocês estão aqui porque são lindas, vão deixar os clientes satisfeitos, segunda-feira que quero todas vocês brilhando aqui, maquiadas, cuidem desses cabelos…” A empresa dava manicure de presente pras vendedoras que batiam meta. Uma vez, fui reclamar algo relativo a direitos trabalhistas, a gerente se recusou a falar comigo enquanto eu não me maquiasse! Tudo foi acumulando, para me fazer decidir mudar. Saí da empresa. Eu queria recomeçar, ser uma universitária e profissional mais bem-vista, aceita, e então, comecei a fazer tudo aquilo que a sociedade exigiu de mim.  Coloquei silicone, reformulei o guarda-roupas, comecei a usar salto, maquiagem, a me depilar, a alisar o cabelo… Pela primeira vez, eu experimentei olhar no espelho e gostar do que via. Eu finalmente estava parecida com a imagem de um corpo ideal. Isso sem falar que, definitivamente, a minha vida sexual deu uma boa melhorada! E claro, tod@s elogiaram e muito, me parabenizaram, etc. Recebo cantadas, as pessoas me tratam melhor em qualquer ambiente que eu vá, colegas e clientes me tratam melhor… E, desde então, eu passei a receber cantadas. E isso faz eu me sentir MUITO bem, e não muito mal. Era o reconhecimento por todo o auto-sacrifício que eu fiz para anular o meu corpo de nascimento e construir uma imagem padrão no lugar. Para mim, as cantadas sempre foram uma forma de pressão para que eu me encaixasse no padrão estético estabelecido. O silêncio dos homens qdo eu passava na rua me passava uma clara impressão de “ninguém chuta cachorro morto”.  É como se a maioria das mulheres fosse vista como objeto, e ser um objeto para usufruto sexual heteromasculino fosse o máximo de realização que uma mulher pudesse almejar na vida. Mas, no entanto, uma minoria seria MENOS que um objeto. Seria LIXO. E eu fazia parte do lixo. Uma espécie de objeto quebrado, inútil, sem serventia. Ser um objeto significa não ser um ser humano, e sim algo útil, inanimado, sem vontade própria, com finalidade utilitária. Mas não ser NEM um objeto, ser MERDA, não prestar para NADA, é muito mais doloroso.  Na cabeça doentia da maior parte dos homens, dar uma cantada para uma mulher é sim um elogio. Porque tem mulher, como eu, que nem pra objeto sexual não serve. Por isso, ser um objeto sexual seria ótimo! Já que ser um ser humano, quando se é mulher, não é possível mesmo… Por isso, fico incomodada que o movimento não leve em consideração esse aspecto das cantadas: o aspecto de ser uma forma de controle social da aparência das mulheres, e procurar mantê-las dentro do que os caras acham desejável. Porque quando os homens falam que mulher gosta de ouvir cantada, isso tem um fundo de verdade. Eu fui ensinada que era um elogio, e acreditei. E acho que não sou a única. O fato de eu não receber elogios me fazia ansiar por eles, e recebê-los passou a ser uma recompensa. Uma das primeiras que eu ouvi foi “Nossa gatinha, tá de parabéns heim?” A minha vontade era responder: estou mesmo, pra usar essa calça justa desconfortável, esse salto alto, acordar uma hora mais cedo todo dia pra me maquiar, gastar 6 mil reais pra colocar silicone, 300 pra alisar o cabelo, eu mereço sim os parabéns por tanto auto-sacrifício e acho bom que você reconheça mesmo! Sempre me sinto um lixo quando ouço ou leio relatos de cantadas dados por feministas que descrevem em detalhes o quanto estavam mal vestidas quando foram cantadas na rua. Isso faz eu me sentir uma total merda. Eu preciso fazer muito esforço para “merecer” um “elogio”, uma loira recebe até quando deliberadamente sai de casa mal vestida pra não ser incomodada. O que isso indica? Que o meu corpo é recebido com total asco pelos passantes. E isso coloca a minha auto-estima lá em baixo.  A gente precisa pensar nessa questão da internalização da opressão, das mulheres comprarem o discurso do opressor de que elas devem almejar a violência. Eu falo isso porque me aconteceu e acontece.   Kátia da Costa.