Cantada 218

218 – “Quando eu tinha uns 12 anos, um menino do colégio que estava sentado atrás de mim, passou a mão na minha bunda. Eu olhei pra trás e nem acreditei. Mas não tive reação. Aí ele passou de novo e eu virei pra trás e mandei ele parar. Disse que se ele fizesse de novo eu ia contar pro inspetor-chefe. Na terceira vez eu levantei e fui falar com o inspetor. O inspetor ouviu e não falou nada, só chamou o garoto pra conversarmos os três. Quando o garoto chegou, ele falou pro garoto o que eu tinha dito e perguntou se era verdade. Ele negou e o inspetor disse que não queria mais que aquilo se repetisse. Aí ele virou pra mim, ainda na presença do garoto e me falou: ‘eu acho estranho é você só ter vindo contar pra mim na terceira vez que ele fez isso. Você não sentiu das outras vezes ou o quê…? Você por acaso é um bebedouro pra não sentir quando tocam você?’ E começou a passar a mão no bebedouro, dizendo: ‘Aqui, o bebedouro não está sentindo nada. Ele não reclama quando passam a mão nele. Mas você deixa passarem a mão em você uma vez, duas, e aí depois reclama?’.  Bem, ele simplesmente tirou completamente a minha razão, não levou em conta que eu tinha reclamado sim, só que com o garoto e ainda insinuou que eu tinha gostado. Eu devo ter ficado muito vermelha, fiquei com muita vontade de chorar e me sentindo injustiçada. Ele, que era a autoridade a quem eu tinha recorrido, tirou completamente a minha razão.  Eu já passei por outras experiências bem piores depois, mas quis contar essa pois acho que foi a partir dessa experiência que achei que seria melhor me calar do que falar e me sentir injustiçada como daquela vez. Mas tenho aprendido a reagir e me posicionar e os relatos dessa página tem me dado coragem também pra me defender, pois não podemos esperar que alguém lute pela nossa integridade física e mental. Isso não resolve e só continuamos a sofrer, só que caladas.”