Cantada 219

219 – “Eu tinha 12 anos, já era um pouco tarde, a aula havia encerrado. Estávamos na sala, num grupo de 4 pessoas: uma amiga, dois colegas de turma e eu, todos conversando. Não sei bem como começou, mas lembrei lendo a postagem anterior, e o constrangimento, a vontade de chorar foi igual. A marca da violência não some, mesmo que a gente ache.  Um desses colegas de repente sentou na minha perna, me agarrou, querendo me beijar à força. Comecei a gritar, beliscar, ameaçar. Não adiantava. Angustiante é lembrar que as outras duas pessoas riam, achavam que era brincadeira, que eu naturalmente queria ser beijada. Não era, eu nunca tinha beijado antes e estava apavorada. Foi quando uma professora passou, ouviu os gritos e perguntou o que estava acontecendo. Eu, assustada, disparei a primeira coisa que me veio: “fulano está em cima de mim”. Porque estava. Minha professora mandou todos para casa e foi um alívio.  No dia seguinte, durante a aula, ela contou o ocorrido na frente de todos, mas não me defendeu. Disse com malícia que eu havia contado que tinha alguém em cima de mim e que por isso eu estava gritando, falando no sentido sexual mesmo, em tom de piada. Todos riram. Era uma professora de religião. Lembro que tudo o que senti no dia foi nojo e uma vontade enorme de sumir. Essa não é a minha única história triste sobre violência e machismo nessa escola, tampouco fora dela. Só que antes eu era indefesa, precisava de voz e de ajuda e não tive. Hoje eu posso gritar.”