Cantada 222

222 – “Preciso desabafar porque estou indignada. Aqui em Brasília os veículos são obrigados a parar toda vez que há alguém na faixa de pedestre. Infelizmente, alguns motoristas insistem em descumprir essa lei. Estava andando com meu irmão quando, ao tentarmos atravessar na faixa, dois caminhões passaram direto por nós, ignorando o nosso sinal para que parassem. Fiquei irritada e fiz cara feia no instante em que o segundo caminhão passava. Notei que o homem que estava no banco do passageiro tinha no rosto um sorrisinho sarcástico e um tanto invasivo. Sabe aquele sorriso cheio de segundas intenções? Pois então. Comentei o que aconteceu com meu irmão, mais por ter ficado feliz de ter feito cara feia para o homem que pelo sorriso asqueroso dele. A reação do meu irmão foi revoltante. Primeiro ele duvidou que o cara tinha me olhado de forma invasiva. Tentei explicar, dizer que estava acostumada com aquele tipo atitude na rua, e ele praticamente me chamou de louca, duvidou que eu fosse frequentemente abordada, disse que sabia como era um “olhar tarado” e que eu ficaria solteira pra sempre se continuasse com essa postura defensiva. Eu fiquei em choque. Eu sou sim muito abordada, já sofri assédios como a maioria das mulheres, e, mesmo que não tivesse sofrido, me entristece muito entender que meu irmão acredita que as minhas reclamações são infundadas e que eu tenho que aceitar o assédio como algo natural. Me entristece ainda mais o fato de que ele não é o único a pensar assim. E esse tipo de acontecimento só serve pra me incentivar a lutar pela causa. Eu quero ter o direito de ter o meu espaço respeitado, e eu quero, mais que tudo, que pessoas como o meu irmão abram a cabeça e enxerguem o mundo da maneira certa.”