Cantada 245

245 – “Depois de ler aqui histórias sobre assédio em ambiente de trabalho e depois de ter lido sobre aquela menina que se matou por ter sido dopada e violentada pelos próprios colegas de trabalho, eu quero compartilhar algo que mexeu muito comigo quando eu trabalhava em um escritório de advocacia. Eu era estagiária e estava muito feliz por era o meu primeiro estágio remunerado, logo na primeira semana já estava me dando bem com todo mundo. Exceto com um outro estagiário que se achava o chefe, era extremamente arrogante e grosseiro, ficava me dando ordens como se fosse o meu patrão fosse ele. E eu nunca, nunca me sentia bem perto dele. Mas todas as estagiárias que tinham problemas com ele eram mandadas embora (por alguma razão, ele era o ‘protegido’ do nosso patrão) então eu tratei de ficar na minha, pois eu precisava muito daquele estágio. Aguentei grosserias por um tempo, mas depois de uns meses as coisas ficaram estranhas. Eu percebia que ele sempre tentava conversar comigo sobre assuntos íntimos e abordava sobre esses assuntos de uma maneira desagradável e até degradante. (Por exemplo: um dia tivemos que ir ao banco, ele, uma outra estagiária e eu. Na volta, passamos por uma clínica pediátrica e eu comentei com a estagiária ‘eu ia nessa pediatra’. Ele se meteu na conversa e em um tom de voz totalmente malicioso disse ‘e hoje você vai em ginecologista!’ e riu descaradamente da minha cara, como se ir a um ginecologista fosse uma coisa vergonhosa e ruim. AFFF). Quando isso acontecia, a única coisa que eu fazia era ignorar, porque não queria ter brigas, quanto mais sobre coisas íntimas. Mas um dia ele mandou uma mensagem no meu celular totalmente do nada e eu achei estranho porque eu nem sabia como ele tinha conseguido meu número. A princípio, pelo conteúdo da mensagem, eu achei que ele estava querendo falar sobre algo do escritório mesmo. Mas depois ele começou a escrever pra mim que estava tendo problemas no relacionamento com a noiva (sim, ele tinha uma NOIVA) e que nem o sexo estava bom. Daí eu já cortei, dizendo que não era problema meu. E mesmo eu não respondendo mais, ele continuou insistindo em mandar mais mensagens, uma mais suja que a outra, dizendo que eu podia ajuda-lo com esse problema, que sexo não era um assunto de outro mundo, que hoje em dia são ‘as novinhas como eu que ensinam os marmanjos como ele’ (palavras dele), ficou me perguntando se eu era virgem, chegou ao ponto de me perguntar qual seria a minha resposta se ele não fosse noivo! Eu nem acreditava que um cara pudesse estar falando essas coisas, eu fiquei sem reação à medida que eu recebia as mensagens. Ainda me senti culpada, achando que eu é que poderia ter insinuado alguma coisa que ele ‘entendeu errado’, me senti imunda, um verdadeiro lixo. No outro dia, quando cheguei no escritório, eu simplesmente passei reto por ele, não cumprimentei e nem nada e ele ainda teve a cara de pau de falar ‘Nossa, você nem me cumprimentou hoje, hein…’ como se eu nem tivesse motivos para isso. E cada vez mais eu sentia nojo dele. Eu ainda guardei as mensagens no celular para mostrar pro meu patrão, mas eu tive muita vergonha e sabia que não daria em nada, por que os dois eram muito amigos. A única coisa que aconteceria é que eu seria demitida e infelizmente eu precisava muito daquele estágio para pagar a faculdade. Ainda bem que eu consegui um outro estágio logo depois e acabei saindo de lá. Acabei não contando isso para ninguém, por que tive medo de me culparem dessa situação. Depois eu ainda fiquei sabendo de outras estagiárias que também foram muito maltratadas e assediadas por ele, de formas até mais agressivas. Todas as meninas que trabalharam nesse escritório tinham alguma queixa contra ele. Acho que todas elas, como eu, tiveram vergonha ou medo de falar, por que aquelas que discutiram acabaram sendo mandadas embora. O mais triste é saber que até hoje esse cara continua lá dentro, fazendo as mesmas coisas com outras meninas sem que nada de ruim aconteça a ele. É lamentável ver como nós mulheres somos desrespeitadas em tudo. Parece que não temos paz para nada, nem para se divertir, andar nas ruas e nem para trabalhar. As vezes eu sinto que não aguento mais.”