Cantada 246

246 –  “Quando comecei a trabalhar no jornal onde ainda estou, no interior de São Paulo, enfrentei humilhações diversas, incluindo assédio sexual e moral. Ainda hoje há episódios do tipo, mas criei uma casca, uma carapaça, não sei. Às vezes reajo com raiva, outras ridicularizando meu agressor, depende um pouco.  Vejo o local como uma fonte de renda, não tenho apreço pelo que faço, apenas gosto de fazer bem e voltar para casa, onde realmente está minha vida, meu marido, a quem amo e que tem defeitos mil, mas não é machista, nem misógino.  Nesse começo no emprego, em 2007, eu ganhava pouco e convivia com um colega do meu então chefe, um homem de 40 e poucos anos que era o tipo ‘malucão’, o intelectual descolado, avesso às regras. frequentemente ele chegava bêbado ou ‘fumado’, mas até aí, nada de mais.  Um belo dia, levantei para ir ao banheiro e deixei meu celular sobre a mesa. Quando voltei, ele me perguntou “você acha que celular é algo pessoal?”. Respondi que sim, então ele elevou a voz: “então por que deixa essa merda tocando aqui dentro? leva com você”. Eu respondi algo, não lembro, estava chocada, envergonhada, era nova ali, tinha medo de perder o emprego.  O trabalho estava difícil, esse colega e meu então chefe eram desses tipos articulados que não fazem nada de prático, apenas filosofavam e se acham superiores – e são tremendamente machistas.  Em outro episódio, eu estava em minha mesa, ficava de costas para o ‘malucão’. Eu usava uma regata discreta, mas a alça do meu sutiã estava aparecendo; nada de mais, apenas no ombro. Ele se virou para mim, puxou a alça do meu sutiã e disse lascivamente: “de-lííííí-cia”. É engraçado, já faz 5 anos que isso aconteceu e eu estou aqui, digitando e chorando.  Eu reagi, vociferei que aquilo era assédio, que podia processá-lo. Todos os meu colegas, inclusive as mulheres, quietos, ninguém ficou do meu lado. Alguns minutos depois enviei uma mensagem para meu chefe, disse que iria matar o malucão se ele encostasse em mim novamente. Eu iria matá-lo ali dentro, com o que tivesse nas mãos. Eu disse a meu chefe que estava ali para trabalhar e que nada nem ninguém iria tirar minha dignidade.  Meu chefe pediu para que ele fosse embora alguns dias depois, por conta de um erro em uma matéria ele foi demitido. A história ficou conhecida por todos, claro, e até hoje sou alvo de piadas por conta disso, sou a doida da história, por ter reagido à agressão do ‘colega’, por ter ficado brava. Quando as pessoas relembram o fato, eu fico assim, com vontade de chorar, sozinha, sozinha.  Bom, alguns meses depois também esse chefe foi demitido e outro assumiu. A mudança foi boa, embora a atmosfera machista perdure. E ninguém nunca me perguntou como eu havia me sentido. ” acho que chorar tanto tempo depois, relatando aqui um dos episódios de assédio vividos lá, dá a ideia não apenas de como me senti, mas de como ainda me sinto quando sou alvo ou testemunha dessas agressões que as pessoas nomeiam ‘brincadeiras’. obrigada pelo espaço.