Cantada 259

259 –  “No último domingo eu estava voltando da casa do meu namorado, que mora no litoral Sul, sozinha, após brigarmos. Como de costume, o ônibus me deixou no Terminal Rodoviário Jabaquara, porém, por ser um domingo à noite eu me programei para tentar fazer um trajeto que me deixasse em casa com mais rapidez, já levando em consideração a escassez de coletivos em atividade aos finais de semana.  Desci na Estação São Judas do metrô por volta das 21hs para pegar um ônibus do lado de fora que me traria à porta de casa.  Foi então que eu cruzei com alguns rapazes na escada rolante, que começaram a me encarar e comentar coisas que não pude ouvir entre si. Como de costume, encarei de volta como quem questionava o que aquelas pessoas queriam. Os homens esticaram o pescoço até que eu sumisse de seus campos de visão. Fiquei assustada porque a estação estava completamente deserta com exceção dos funcionários do metrô. Perguntei ao bilheteiro para qual lado era a saída mais próxima ao ponto de ônibus, e fui embora da estação. Ao chegar na rua, vi que só haviam mendigos e homens circulando. Completamente deserta. Fui andando até a direção indicada, e à medida em que o caminho foi se tornando mais escuro, vi os mesmos homens que estavam me encarando na estação.  Em um impulso, comecei a chorar. Eu, brigada com o meu namorado, estava quase implorando mentalmente pela presença dele, pelo simples fato de eu não me sentir segura o suficiente para ir e vir sendo uma mulher. Porque é socialmente permitido que aqueles homens estivessem caminhando com tranquilidade, enquanto eu, também cidadã, não consigo fazer o mesmo? Percebi que eles me enxergaram caminhando pra direção em que estavam, e recebi novos olhares intimidadores.  Comecei a correr, instintivamente. Nos dois quarteirões de volta à estação, aproximadamente três mendigos balbuciaram coisas como “volta aqui!” ou “deixa eu te ajudar”.  Voltei à bilheteria aos prantos, trêmula, e o bilheteiro nem ao menos perguntou o que havia acontecido.  Voltei à plataforma, e uma velha senhora veio me oferecer consolo através de palavras cristãs. Eu, agnóstica pendendo ao ateísmo, senti conforto pelo gesto, mas sei que cabe aos homens construir uma situação diferente.  De metrô, demorei o dobro do que levaria de ônibus para chegar à minha casa. Simplesmente porque não podia. Eu, mulher, pagadora de impostos, não tive acesso ao transporte público porque continuar naquele trajeto poderia trazer conseqüências fatais para mim mesma.  Sinto nojo do que poderia ter me acontecido. E vergonha por viver em um mundo tão doente, em que o medo já é intrínseco ao meu gênero.  Obrigada pelo espaço. A iniciativa de vocês é incrível, parabéns! Gratidão pela oportunidade de desabafar. Se forem publicar, podem divulgar meu nome.”  Bruna Alvarenga