Cantada 260

260 –    “Olá!  Lembro que quando eu curti a página, fui uma das primeiras pessoas… nesse tempo, vi os relatos, em pouco tempo, evoluírem de casos de assédio de rua a casos de abusos sexuais sofridos na infância, e daí por diante, demonstrando como esses fenômenos são demonstrações do mesmo processo.  Como já vi falarem em muitos relatos também, me identifiquei com a maioria dos casos, e fui lembrando de várias situações. Refleti sobre como desenvolvemos diversas formas de lidar com o problema: ignorar, sentir vergonha, enfrentar (e correr o risco de sofrer algum outro tipo de violência, ou sofrer, de fato), e até um que aconteceu comigo, e sempre comento com as pessoas – que pode parecer engraçado, mas é mais pura verdade – que é a habilidade mental de sequer decodificar a frase que foi dita pelo homem. Juro! Mesmo que eu pare pra tentar entender, depois, o que ouvi, parece que foi falado num idioma inteligível pra mim…  Mas, enfim!! Dentre tantos casos potenciais a serem contados, gostaria de compartilhar um… pode ser idiota, porque não é engraçado ver alguém que te infligiu violência sofrendo outra… logo, avaliem como preferirem, eu só quero compartilhar… talvez faça alguém sorrir um pouquinho…  Na cidade onde moro, a bicicleta é um meio de transporte bastante utilizado. Eu tinha 15 ou 16 anos, e estava pedalando com uma amiga, numa avenida da cidade, quando, no sentido contrário, também na bicicleta, um homem (aparentemente bêbado), armou o maior escândalo quando nos viu: assobiou, urrou, grunhiu, e todos outros tipos de manifestações que animais irracionais, em descontrole, costumam emitir… poucos segundos depois, por conta de ter praticamente torcido o pescoço para continuar nos olhando, ele tombou a bicicleta. Mas não foi um simples tombo, ele redopiou e caiu de cabeça no chão! Ele ficou tão atônito, que sequer tentou levantar, e apenas recostou a cabeça na sarjeta, e ficou deitado lá, ainda com uma cara de feliz… eu e minha amiga, ainda adolescentes, começamos a rir na mesma altura dos grunhidos que ele tinha emitido segundos antes, até o perdermos de vista! Foi muito bom!   Mas, claro! Teria sido muito melhor se ele não tivesse nos incomodado antes, e não é muito legal uma pessoa se machucar inteira no chão.Teria sido bem melhor se ele se conscientizasse, por outras vias, que assediar mulheres/meninas nas ruas não é bom, mas é desrespeitoso, é violento… bem mais que o tombo que ele tomou… Eu trocaria mil tombos de assediadores de rua, bem “merecidos”, pelo respeito e liberdade de andar na cidade, sem ser incomodada, pro resto da minha vida! Mas quando a miséria de dignidade é grande, a gente fica hiper feliz com uma esmola de risadas… e acha bom retribuir a violência que sofre! Até porque, sofrer sem reagir jamais, não é ser humano, né?  Enfim, são esses conflitos e contradições que a violência que sofremos nos impõem, e estamos sempre oscilando entre posturas coerentes, reações súbitas, e quando menos esclarecidas, nos aliando aos agressores de outras formas, achando que o que eles nos impõem é bom, é elogio, para tornar menos insuportável… Mas, vamos nessa! Nos apoiando, e buscando dia a dia, transformar isso!!   Obrigada!!