Cantada 266

266 –   “É um tanto assustador perceber que, talvez, todas nós temos muitos casos para contar sobre esse assunto. Lendo alguns desses relatos, as lembranças de anos atrás que estavam esquecidas retornam à mente com uma perspectiva diferente. Nova. Me dou conta que os sentimentos de vergonha, de culpa e de medo não podem ser considerados normais frente a tais situações. Eu não deveria sentir vergonha. A culpa não foi minha. Vou contar um caso recente…   Eu estava voltando da faculdade à noite de ônibus. Estava sentada no fundo do ônibus, próximo à porta de desembarque. A viagem foi tranquila grande parte do caminho. Quase no fim da viagem, entrou um homem e sentou num banco próximo ao meu. Senti que ele estava olhando fixamente para mim. Como ele estava num banco à frente, tinha que virar para trás para me encarar. Quer dizer, não era como se estivesse olhando “discretamente”. Parecia que queria se fazer notar. Eu ignorei totalmente. Olhava fixamente em direção à janela, procurando não cruzar com o olhar dele. Senti medo e vergonha. O ônibus estava vazio e ele continuava me encarando. Finalmente, o ponto em que eu iria descer se aproximava. Como ele estava sentado próximo à porta de saída, eu esperei o máximo para levantar. Levantei, dei sinal para descer e fui para a porta. Tentei fingir que não percebi que ele me encarava, tentei não cruzar olhares e praticamente não levantei a cabeça. Tudo em vão. Ele falou comigo. Disse ‘oi gatinha’ e outras coisas que não consigo me lembrar. Continuei ignorando e torcendo para descer logo pois sabia que meu pai estaria me esperando. Ele continuou falando enquanto eu descia do ônibus. Senti um alívio quando vi que meu pai já me esperava no ponto de ônibus.  Era de noite e eu usava um shorts. Me senti culpada e com vergonha pela roupa que estava vestindo. Me senti culpada pelo horário que estava andando na rua. E é estranho perceber agora como a sensação de segurança veio justamente porque estaria acompanhada de um homem, meu pai.   Meu namorado ligou e perguntou se eu tinha chegado bem. Respondi que sim. Não contei para ele. Talvez por vergonha.”