Cantada 274

274 – ” Legal a página. Vou contar meu relato – aconteceu hoje. Estava fazendo minha caminhada, como sempre, até então tudo bem. Quando estava descendo a Ana Godoi, percebi um carro se aproximando e reduzindo a velocidade. No carro tinha dois rapazes – um segurando uma garrafa de cerveja na mão e os dois com copos – inclusive o que dirigia. Um deles pediu uma informação. Hiper-desconfiada, tirei só um fone de ouvido e mantive distância. E um deles perguntou – ei, onde é o paraíso? Bom, confirmadas as suspeitas de que aquilo não era sério e que eles queriam apenas me importunar, coloquei de volta o fone de ouvido e continuei andando em frente, sem nem mudar de expressão. MAS, para a minha surpresa, a gelada não surtiu efeito. Eles continuaram andando ao meu lado, dentro do carro, falando todo o tipo de obscenidades – por sorte grande parte delas eu não entendi devido aos fones de ouvido. Faltavam ainda 2 metros pra que eu chegasse no portão lateral da UFU, e comecei a ficar nervosa porque eles não pareciam que iam desistir. Então eu pensava comigo – não vai acontecer nada, está de dia, a rua está movimentada, eles não vão fazer nada. Mas esse pensamento era só um conforto, porque no fundo eu sabia que se eles quisessem, FARIAM o que desse na telha. Uma menina vinha subindo na direção oposta à minha, e logo viu a situação e percebeu o que acontecia, olhou pra mim com aquela cara de quem entende exatamente o que você está passando, e assim como eu, apertou o passo. Quando estava quase chegando no portão, eles pararam o carro. Quase tive um ataque. Não pensei em mais nada, acelerei e finalmente entrei no portão lateral da UFU, e continuei andando uns 2 metros sem parar nem ter coragem de olhar pra trás. Quando juntei coragem, parei. Olhei. Nada. Não me seguiram. UFA! Um misto de raiva, frustração e impotência apareceram, todos ao mesmo tempo. Tive vontade de chorar, mas não chorei. Virei e continuei andando, mas dessa vez direto pra casa. Enfim, terminei a minha caminhada mais cedo, e eles com certeza estão por aí agora, andando de carro, bêbados, colocando a vida de outros motoristas e pedestres em risco, provavelmente procurando outra mulher para atormentar. Se isso não é opressão, meu amigo, então precisamos todos voltar ao dicionário e estudar novamente o significado da palavra. Feminismo não é nada de outro mundo. Feminismo é ser contra esse tipo de comportamento, contra o pensamento de que só porque uma mulher está na rua sozinha você tem o direito de segui-la, dirigir palavras obscenas a ela, e constrangê-la em público. Provavelmente vou demorar um pouco pra voltar a caminhar…” Janine Bell