Cantada 292

292 –  “E tenho mais um caso para contar, esse aconteceu em 2010 quando eu tinha 17-18 anos. Eu era solteira até então e fui em uma festa na rua, estilo bloco de carnaval, acompanhada por algumas amigas e alguns amigos. Festa vai, festa vem, me bateu aquela vontade de ir ao banheiro. Chamei minha amiga pra ir junto e combinei com o pessoal de nos encontrarmos em ponto x do local. A festa em questão é na cidade vizinha, e muitas pessoas da minha cidade a frequentam. Nessa época eu já era feminista e tinha até aprendido como me defender, fazendo aulas de luta e aprendi defesa pessoal também, acredito que isso seja importante na infeliz sociedade em que vivemos atualmente. Eis que um conhecido me atacou na saída do banheiro, em um cantinho mais escuro, eu estava esperando na porta pela minha amiga quando ele me puxou. Aparentemente bêbado ele dizia que sabia que eu queria, que eu não podia dizer não. Eu recusei e ele começou a gritar, me chamando de vagabunda. Essas alturas a minha amiga saiu do banheiro e me puxou desesperada pra longe dele. E ele foi atrás, nos empurrou e me atacou com um chute. A minha amiga entrou em pânico, eu gritei pra ela ir chamar o Fulano (um amigo nosso que nos esperava ali perto). As pessoas começaram a se aproximar em volta tentando tirar ele de cima de mim. Eu fiquei paralisada. Poxa, aprendi tudo aquilo pra nada? Admito, ele me bateu bastante. Mas eu consegui levantar e fui pra cima dele. Não queria ser obrigada a fazer isso, mas sabe quando a raiva toma conta do teu corpo, que tu não vê nada na frente? E eu chutei, eu soquei, até ele cair no chão. A ”platéia” ria em vez de separar. Não riam de mim, riam dele, ”apanhou de uma mulher”. Sinceramente eu esperava que alguém viesse apartar, e não ficassem rindo. Não bati nele por prazer, pra mostrar pra alguém como deu a entender pela reação das pessoas, eu fiz pra me defender, eu não queria deixar barato. Isso só aconteceu quando o meu amigo chegou e aí a briga tomou outro rumo, de homem pra homem como esse covarde merecia até os amigos o carregarem embora. Essa lógica eu ainda não entendi, só porque eu não o quis eu me torno uma vagabunda? Eu mereço apanhar por causa disso? Tenho plena consciência de que deveria ter procurado a polícia, que por sinal não sei porque diabos não estava em um local daquele, cheio de gente. Deveria mas não fiz, no dia me deu aquela sensação de ”justiça feita com as próprias mãos”, fiquei orgulhosa de mim. Mas hoje sei que deveria sim, pra ficar ali pelo resto da vida o que aquele ser foi capaz de fazer com uma mulher que disse NÃO. Depois de tudo isso, mudei o meu pensamento de ”esperar alguém me defender”, eu normalmente pensava assim. Agora entendo, que se eu não me defender, ninguém vai fazer isso por mim. O cara, que era meu conhecido, justificou o alcool pelas suas atitudes, mas eu sinceramente acho que o alcool só ajudou a mostrar quem ele realmente era, um potencial estuprador.  Ainda bem, nunca mais aconteceu algo assim comigo novamente, e espero não passar por isso de novo, mas sei que ainda, infelizmente, muitas mulheres passam pelo mesmo, ou pior, ainda irão passar…”