Cantada 309

309 – “Olá! Gostaria de compartilhar com as leitorxs da página alguns casos que me aconteceram. Queria ser publicada de forma anônima pois sei que entre meus “amigos” do facebook, nem todos entenderiam minha postura e temo virar motivo de “brincadeiras” dos meus amigos, já que desde que me assumi feminista, sou obrigada a aguentá-los fazendo piadinhas machistas na minha frente só pra testar minha reação. Enfim. Depois de um tempo acompanhando a página (ressalto que o trabalho aqui feito é MUITO importante para nos empoderar!), comecei a me sentir mais confiante para responder às “cantadas”. Tenho lutado contra o hábito (pois é um hábito adquirido) de abaixar a cabeça e sair andando quando alguém vem me importunar. E então comecei a responder! Semana passada, fui ao supermercado e tinha um cara sentado na sarjeta, com uniforme de alguma empresa, parado, mexendo com todas as mulheres que passavam. Quando passei (pois era meu caminho para chegar ao mercado), ele começou bem baixinho “nossa, delícia, ai, ai, que gostosa”, de um jeito que só eu pudesse ouvir. Ele não esperava, mas me virei pra ele, parei e disse MUITO alto, gritando: CALE A BOCA SEU IMBECIL! NÃO PERGUNTEI O QUE VOCÊ ACHA DE MIM! Precisava ver a cara do boboca, ficou totalmente sem reação, parado mesmo, com uma cara de bobo. Algumas pessoas na rua olharam, mas eu nem liguei.  Depois de alguns dias, ia à manicure, e passei na frente de uma borracharia onde tinham 2 caras. Logo que passei eles começaram “psiu, psiu”. Não olhei e continuaram. Quando ouvi o terceiro “psiu”, lembrei de reagir. Então parei e fiz a inocente, perguntando: “oi, que é? em que posso ajudar?” eles ficaram sem reação e, uma vez claro que eles só queriam me importunar por puro hábito machista, declarei: “só estou passando na rua, não dei o direito de falaram comigo, vocês não tem mãe por acaso? olha o respeito!”. Os dois ficaram, novamente, com caras de bobo apenas me olhando sem entender muito o que estava acontecendo.  O último fato aconteceu hoje, quando fui à praia sozinha. Cheguei e coloquei minhas coisas na mesa de uma barraca, ia tirando o vestido e vi dois moços, aparentemente bêbados, que olhavam em minha direção e hesitavam em se aproximar. Fingi que não era comigo e continuei arrumando minhas coisas, quando um deles tocou no meu braço. Foi o estopim. Já virei com a pior cara que consegui fazer e ele disse “você é muito bonita…” Dessa vez fiquei mais nervosa, pois ele me tocou. Então eu respondi: “EU NÃO VIM AQUI PRA VOCÊ ME ACHAR BONITA OU FEIA! POR FAVOR ME DÊ LICENÇA QUE EU NÃO DEI LIBERDADE PRA VOCÊ FALAR COMIGO!!” Ele ficou um tempo olhando e tentando entender o que tinha acontecido, quando vi, queria brigar comigo. Por sorte, o outro cara amenizou, tentou levá-lo embora e ainda dizendo “deixa, ela nem é bonita”. Eu não deixei barato, ainda respondi: “E NINGUÉM PERGUNTOU! VÃO EMBORA DAQUI!”. Eu só sei que acho que isso é importante pra mostrar o quão naturalizado é para os homens cultivar esse tipo de comportamento. Quando a mulher não tem a reação que eles esperam (de ficar com vergonha, de passar de cabeça abaixada, de atravessar a rua) eles ficam sem saber o que fazer. Eu acho importante reagir desse modo porque acho que os chama à realidade do absurdo que eles estão fazendo, mostra que não é assim tão normal. Eu vou continuar respondendo sempre que possível e jamais vou abaixar a cabeça pra uma grosseria! (importante lembrar que todos esses fatos aconteceram em locais movimentados, com mais gente em volta, eu não sei se faria o mesmo se tivesse numa situação mais vulnerável, mas mesmo assim, acho que já é alguma coisa). Obrigada pela página!”