Cantada 318

318 –  “Fico feliz de vir aqui contar uma história da qual saí me sentindo bem, diferente de todas as vezes em que diariamente somos assediadas na rua. Mesmo quando respondemos, sempre resta aquela pontinha de impotência e desamparo, especialmente quando o babaca ri da sua cara e parece triunfar por ter te irritado. Este caso lavou minha alma. Foi na auto escola que estou fazendo. Ainda estou nas aulas teóricas, que são uma zona. Pela tarde, o professor passa videos e sai da sala e as pessoas se comunicam aos berros enquanto o tempo passa. O alvoroço é sempre causado por um cara mais velho que é completamente machista e homofóbico, que, além disso, é sem noção e precisa aparecer o tempo todo, tirar fotos das meninas, chamar os outros de veado e dizer que ele é feliz porque não tem mulher pra encher o saco dele. Pois então. Não dou confiança para ele nem para os que alimentam suas piadinhas esdrúxulas e quando ele está na sala sempre fico quieta. Acontece que o cara reparou na minha introspecção e começou a falar pros outros: “olha como ela é caladona”, etc. Dei de ombros. Mas ontem ele veio me perguntar na frente de todos por que eu estava calada, se eu estava triste, essas coisas que só interessam quando o cara quer expor uma mulher aos outros, especialmente se ele for o único macho iluminado que consegue desmanchar as camadas de timidez de uma menina quieta. Pois, ao ver que eu não ia dar bola pra conversinha dele, ele apelou e disse “você está muito bonita hoje”. Todos quietos olhando a cena. E eu, calmamente, triunfante, classuda, disse: “desculpe, mas eu não pedi a sua opinião sobre a minha aparência.” Silêncio e constrangimento total na sala. Quero ver se amanhã vai ter alguma gracinha comigo!  Obrigada por esse espaço tão bom e solidário e de sororidade, meninas!!!”