Cantada 360

360 – “Quero contar minha história de abuso sexual.   Quando eu tinha 14 anos, pouco depois de me mudar para Belo Horizonte, eu estava em tratamento de coreia de Sydenham (que, entre outras coisas, causam espasmos musculares involuntários). Por causa da manifestação da doença, eu fiquei muito isolada na escola onde eu estudava e resolvi mudar de escola. Quando fomos procurar uma vaga em outra escola, eu e minha mãe descobrimos que o porteiro dessa escola era o mesmo porteiro que trabalhou na escola do lado na minha casa, tendo tido contato DIÁRIO comigo, meus pais e minha mãe durante uns quatro anos. Esse porteiro disse que nos ajudaria arrumar vaga. Por já conhecê-lo (ele devia ter uns 50 anos na época), eu sempre o tratava com cordialidade na nova escola. Um dia, um colega de classe ficou me fez muita raiva (zoando as manifestações da doença que eu estava tratando) e eu fui chorando para a sala dos professores, procurando alguém a quem me queixar. Deve ter sido a única vez que eu entrei nessa sala, mas me lembro claramente dela. A sala estava vazia (deve ter sido durante a aula, não sei) e o tal porteiro foi até lá atrás de mim. Eu estava aos prantos e ele veio dizendo que tinha uma técnica para me acalmar. Foi no bebedouro da sala, molhou a mão em água gelada e passou no meu rosto. Em seguida, com a intenção de ver meus batimentos, colocou a mão sob a minha blusa e TENTOU ME APALPAR. Apalpar meus seios. Na época, eu não tinha sequer beijado na boca, não tinha aparência de mulher, quase não tinha seios e era totalmente desleixada. Além disso, eu estava CLARAMENTE em tratamento de saúde e ele sabia. Eu não lembro como eu tirei a mão dele, eu sabia que estava errado mas não comentei com ninguém, com medo de ter sido uma má interpretação da ajuda dele. (…) Um outro dia, já saudável, precisei buscar uma cadeira extra, porque as cadeiras estavam em falta na sala. Fui até a sala onde ficavam as cadeiras extras e ele estava lá limpando cadeira. Quando eu entrei, ele fechou a porta e veio dizendo que queria me ‘carregar’ para ver se ele conseguia levantar meu peso. Antes de eu ao menos ter chance de dizer não ele me levantou, me deitou sobre as cadeiras vazias e veio tentar se colocar entre minhas pernas. Para sair dele, eu tive que fazer força e sair rolando sobre as cadeiras e cair no chão. Desde então evitei ao máximo ficar sozinha com ele e, por sorte, consegui uma bolsa de estudos e mudei de colégio.  Ele era um homem nada atraente (só consigo lembrar da cara dele com asco) tentando abusar de mim sob o disfarce de brincadeira. Nenhum homem brinca com uma adolescente de simular ato sexual.  Eu evitei lembrar dessa história por anos, até chorar compulsivamente conversando sobre o (suposto) estupro ocorrido no BBB, 7 anos depois. Até procurei a polícia, mas, pelo tempo transcorrido e pela falta de provas materiais, dificilmente ele seria investigado. Sei o nome dele, sei dois locais onde ele trabalho, tenho amigos que sabem onde ele mora, mas não há nada que eu possa fazer. Não fiquei traumatizada, como era de se esperar, sei que isso é uma parte da minha história que me motiva a fazer o possível para que histórias como a minha não se repitam.”  Ingrid Faria