Cantada 369

369 – “Olá, gostaria de contar alguns relatos de abusos que venho sofrendo e fazer um desabafo. Provavelmente vai ser um texto grande, mas estou precisando, porque venho acumulando chateação e indignação há meses!  1o caso, também relacionado com fotografias: No meu prédio morava um menino, de uns 10-13 anos com a mãe, e sempre nos encontrávamos no elevador. Nesses encontros, minha mãe comentava que esse menino ficava me olhando, me paquerava e afins. Eu percebia ele me olhando mesmo, mas a princípio achei que não fosse nada demais. Um dia, no caminho da padaria, encontro esse mesmo menino junto com outro, acredito ser um amigo, os dois mexendo no celular, conversando, rindo e olhando pra mim. Vocês acreditam que DOIS MENINOS de 10, no MÁXIMO 13 anos me seguiram até a padaria tirando fotos (com flash) de mim, pelo caminho? Atrás e mesmo na minha FRENTE. Eles me esperaram do lado de fora da padaria e me acompanharam tirando fotos na volta também. Vocês não calculam o ódio que senti, deles, da educação/cultura/sociedade machista, do mundo, de tudo! Resolvi confrontá-los e sem conseguir conter a agressividade, eu disse “Seus pivetes imbecis, o que vocês acham que estão fazendo?!”, nisso, o que morava no meu prédio chegou bem perto de mim, com aquelas amoebas que vêm num potinho, sabem? Coloridas e tal. E sem falar nada, só me encarando, pegou a amoeba e jogou no meu “decote”! Detalhe: a blusa não era decotada, era uma regatinha justa que apenas deixava o pescoço e o colo a mostra. Peguei aquilo de volta, joguei na cara dele e ainda insatisfeita e indignada, arranquei o celular das mãos dele, joguei no chão e pisoteei o negócio! Eles ficaram incrédulos e todos que estavam na rua ao redor me acharam um monstro por ter feito algo assim com “duas crianças”, “dois meninos inocentes”.   2o caso: Acordei bem cedo para ir à faculdade porque precisava passar no posto para colocar gasolina antes. Era umas 6hrs da manhã. Dirigindo, abri os vidros do carro, que são escuros, para enxergar melhor e, ao parar num sinal vermelho, um carro parou ao meu lado e o motorista começou a mexer comigo! Dizendo coisas como “Oi, linda, tudo bem?”. Não respondi, ÓBVIO – até parece que no trânsito, num sinal vermelho, vou querer ficar de PAPO com merda disfarçada de gente! Ele insistiu “Bom dia, você é muito linda, conversa comigo, linda. Minha segunda-feira vai ser boa depois de ver uma loira tão linda logo de manhã” e eu fechei o vidro. Fiquei morrendo de medo dele me seguir ou derivados.   Agora vem o desabafo: Sobre o primeiro relato, eu nem sei o que dizer. Sinceramente, me sinto vencida por pura indignação que inclusive me deixa sem palavras! Surreal. Quanto o segundo relato, eu quero dizer o seguinte: já vi várias discussões no facebook de homens falando que é apenas elogio; e de muitos que lêem essa página e dizem, para a maioria dos relatos “ah, mas isso foi claramente abuso! isso não é cantada! cantada é diferente de abuso, cantada é elogio”; de acordo com esses argumentos, o que aconteceu comigo no segundo caso foi uma cantada apenas, certo? Agora eu digo: extremamente inconveniente! Ok, foram “elogios”, mas eu NÃO QUERO ELOGIOS DE HOMENS DESCONHECIDOS! Eu e, ao que parece (por essa página, pelos milhares de protestos que vejo na internet, nacionais e até internacionais) MILHARES de outras mulheres; arrisco inclusive dizer que a MAIORIA das mulheres! É desconfortável, é ameaçador porque a maioria de nós se sente desprotegida, sem reação e com medo da reação que os homens podem ter ao serem até ignorados, quanto mais “bem respondidos”. Isso estragou o meu dia! Cheguei na faculdade bufando de ódio, minha gastrite atacou. Eu não quero ser elogiada na rua ou em lugares públicos, eu não estou em exposição, eu não quero saber a opinião de homens em relação à minha aparência! Eu não quero olhares persistentes nem sorrisos inconvenientes, eu não quero elogios enquanto eu estou tentando fazer coisas corriqueiras com um pouco de paz, como chegar a faculdade ou comprar pão na padaria! E arrisco dizer que a maioria das mulheres também não. Eu quero o direito de ir e vir como um SER HUMANO – e não como uma mulher (que, na sociedade machista que temos, infelizmente parece que existe para o entretenimento e “felicidade” desses homens nojentos). É inconveniente, é FALTA de educação, é invasão do espaço do outro, falta de respeito. Com tantos traumas de cantadas e assédio que recebemos, muitas vezes, para muitas de nós, chega a ser ameaçador! Parem com isso, deixem-nos existir em paz! Por favor!”  Amanda