Cantada 371

371 – “Vou contar um caso que ocorreu comigo na última sexta-feira (22/02) quando eu estava voltando do meu curso à noite. Não sei se ele se enquadraria como cantada ou um abuso, mas enfim…  Eu entrei no ônibus que eu sempre costumo pegar às 22:50 para voltar para casa, ele costuma ficar mais ou menos cheio nesse horário porque tem muitas pessoas que estão voltando do trabalho e de qualquer outra coisa também, o que de certa forma faz com que eu me sinta mais segura pegando um ônibus à noite, porque eu não costumo sair muito tarde porque sou uma pessoa mais caseira e por um certo medo também. Eu estava usando uma camisa meio larga de um anime que eu gosto muito, uma calça jeans folgadinha e tênis slip-on azul-marinho, ou seja, bem desleixada, nada lá muito ~atraente~ aos olhos masculinos. Tinha me sentado num banco ao lado da janela próximo ao trocador e comecei a ler um livro. O lugar do meu lado estava vazio até que um cara pedisse licença e sentar-se ao meu lado. Não liguei muito pra ele, até que ele me cutucasse e perguntasse que livro eu estava lendo, aí eu mostrei a capa (era o livro do The Walking Dead que foca na história do Governador), e ele me perguntou se eu gostava do seriado, respondi que sim, aí ele começou a puxar assunto comigo, já perguntando se eu gostava de Shakespeare, Bach, fazia um monte de citações filosóficas aleatórias, e começou a falar que era uma pessoa muito sensível, capaz de captar as ondas das pessoas ou algo do tipo e que com isso, conseguiu ver que eu também era uma pessoa tão sensível quanto ele, e me perguntou se poderíamos ser grandes amigos, porque segundo ele a amizade é essencial e mais outros blábláblás. Eu estava ficando assustada e meio perturbada com aquilo, porque estranhos não costumam puxar assunto comigo, aí eu estava meio sem graça em respondê-lo, só falei que a amizade não é algo que se cria repentinamente daquele jeito, ele concordou e disse que queria criar um laço de amizade comigo, e toda hora repetia que a amizade era essencial e blábláblá, na verdade ele repetia várias coisas que ele falava o tempo inteiro. Então ele me pede uma folha para que ele possa escrever algo, como eu estava curiosa pra saber o que diabos ele queria, entreguei uma folha e uma caneta, só que ele queria um caderno pra ter um apoio melhor pra escrever, daí entreguei o meu caderno aberto numa parte aleatória em branco para que ele o fizesse. Ele enrolou bastante e eu tive que descer, aí ele insistiu em descer junto comigo e ok, descemos juntos e ele continuou falando um monte de coisas, me perguntando se eu gostava de xadrez, porque ele amava xadrez, dava aulas e tudo o mais, também perguntou minha idade (17), se eu fazia faculdade, o que eu ia tentar, enfim… Ele falou sua idade também, que era 33, o que me surpreendeu porque ele não parecia ser tão velho assim, aí ele começou a perguntar se teria algum problema se os meus pais achariam ruim eu ter um amigo dessa idade e mais outras coisas, o que também me deixou mais assustada ainda. Finalmente, ele começou a escrever no meu caderno o que ele queria escrever e enquanto isso ele me perguntou de novo se poderíamos ser grandes amigos, aí eu perguntei se ele tinha segundas intenções e ele disse que não, que ele era um homem de bom caráter e tal, só que aí ele vai e começa a supor, que se por acaso, após a gente ter virado bons amigos e tudo o mais, ele poderia começar a gostar de mim de outra maneira, ou eu gostar dele, ou até mesmo ser mútuo, e perguntou se tinha alguma chance, o que me fez cortá-lo logo, falando que não, porque eu tinha namorado, e ele perguntou “mas e se vocês terminarem?”, aí eu respondi que não pretendia terminar com ele. Acho que ele deve ter entendido a minha posição de que eu não queria nada com ele e que eu queria ir embora logo, porque estávamos na esquina da minha rua e inventei que minha mãe estava me esperando, que eu tinha que ir embora logo, então ele terminou de escrever, me entregando o caderno, que tinha um monte de maneiras de contatá-lo escrito numa folha (o facebook, telefone, e-mail etc) e também que ele dava aulas de xadrez etc. Consegui finalizar a conversa com ele e antes de eu começar a descer a minha rua, ele que ia pelo caminho oposto, me perguntou se queria que ele me acompanhasse, falei que não, ele insistiu um pouco perguntando se era perigoso porque a rua estava vazia, aí eu neguei de novo e ele finalmente me deixou ir. Assim quando vi ele virando a rua dele, saí correndo até a minha casa e entrei, com os meus pais se deparando comigo num estado meio catatônico. Contei para a minha mãe o que aconteceu e vimos juntas o perfil dele no Facebook, e ela disse que acha que ele deve ser “só um doido inofensivo”, mas depois daquele dia, eu fico sempre apreensiva quando estou voltando do curso, olho bem para quem está pegando ônibus comigo com medo de me encontrar com ele novamente, até inventei umas desculpas caso ele venha me abordar novamente (eu pretendo falar que minha mãe nos viu e me proibiu de falar com ele), mas temo pela reação dele, porque vai que ele não seja um “só um doido inofensivo” como minha mãe disse? Me sinto ameaçada, porque por mais que realmente ele não tentou nada comigo daquela vez, tenho medo de que ele possa ser sim uma pessoa de má índole como os abusadores dos casos que contam nesta página, e não tem como negar que essa possibilidade existe até com um amigo próximo, imagine com um estranho então?  No mais, espero que eu nunca mais veja ele novamente. Ele pode até ser uma boa pessoa, mas prefiro não me arriscar.”