Cantada 403

403 –  “Já escutei todo o tipo de bobagem e obscenidade, já tive meu caminho bloqueado, cabelo puxado e várias partes do meu corpo acariciadas sem nenhuma autorização, mas esse caso em específico me deixou bastante incomodada. Estava caminhando com uma amiga minha por uma avenida relativamente movimentada, mas como era por volta da meia-noite havia poucos passantes. Eu estava conversando com a amiga em questão, uma aleatoriedade, na verdade, sobre como eu era gordinha na infância. Comentei que fui muito gordinha até os doze anos porque “a minha menstruação ainda não havia descido”. Eis que passa por mim dois homens por volta dos quarenta e cinco anos e um deles responde “aí é problema, hein?” (se referindo à minha menstruação que não havia descido, um trecho que ele escutou fora do contexto e se sentiu no direito de interpretar como bem quis, obviamente insinuando que eu provavelmente levava uma vida promíscua e por isso minha menstruação atrasara). Noventa por cento das vezes eu costumo responder, mas dessa vez fiquei ligeiramente em dúvida. Cheguei a cogitar a ideia de que ele talvez não estivesse falando comigo. Mas ele estava acompanhado, e quando ele fez o comentário em questão, acabou por interromper o que o outro cara dizia. Esse então respondeu com um “quê?” e foi quando ele gesticulou na minha direção e explicou a natureza de suas palavras. Diante da certeza de que ele havia se referido a mim, meu sangue ferveu. Comecei imediatamente a andar mais rápido (eles já estavam na minha frente) e esbravejar a plenos pulmões. Perguntei se ele não tinha coisas mais importantes com o que se preocupar, como sua aposentadoria, por exemplo. Se ele não tinha vergonha, que eu tinha idade para ser filha dele, que ele era um imbecil, abusivo e misógino que não tinha nenhum direito de se meter na minha vida e mais uma porção de coisas. Só parei quando incomodei-o suficiente até que ele entrasse em uma rua qualquer, apertando o passo para “fugir” de mim.”