Cantada 412

412 –  “Há cerca de um mês falei sobre minha infância/adolescência conturbada [https://www.facebook.com/CantadaDeRua/posts/214443958700459]  e disse que iria postar mais relatos da minha “doce vida”. Enfim, assim como muitas aqui, não foram poucas as vezes em que tive de ouvir palhaçadas na rua pelo simples fato de ser mulher.  “Oi, princesa!”… na saída do colégio, de um desconhecido com uma expressão completamente asquerosa no rosto e um tom de voz lascivo.  “Isso que é mulher”… um homem descarregando um caminhão com um colega enquanto me olhava de cima a baixo, “avaliando o material”.  “Você é a mulher mais linda da cidade”… de um desconhecido que sorria de forma estranha (não, não era gentil!) pra mim enquanto passava ao meu lado de forma bem próxima, quase me prensando na cerca de um terreno baldio da minha rua em plena luz do dia. Era pra eu me sentir lisonjeada?  (E que se danem os engraçadinhos que dissessem que eu estava “me colocando voluntariamente” em risco! Eu PRECISAVA passar pelo terreno para chegar à minha casa!)  Mas um dos relatos que eu gostaria de destacar foi de uma abordagem em plena luz do dia quando eu tinha 17 anos. Eu me lembro perfeitamente… tinha acabado de entrar na faculdade e estava voltando para casa para almoçar depois das aulas da manhã. Desci no ponto de ônibus (que não era em nenhum local ermo, era no centro da cidade!) para andar o trecho que me restava até a minha casa… quando fui abordada por um homem.  “Oi, linda! Posso te acompanhar?”  Obviamente disse que não havia necessidade. “Não, obrigada” – sim, ainda fui educada com o homem. Mas em vez de ele se mancar e me deixar em paz, ele continuou insistindo, me acompanhando.  “Não precisa ter medo, princesa, não vou te fazer nada, eu sou policial…”  E eu com isso? E francamente… um policial deveria ser o MAIS APTO a entender o motivo de uma mulher não querer um estranho a persegui-la. Mas vai saber se era policial mesmo…  Mas, como infelizmente sou um tanto tímida para gritar no meio da rua (estou tentando trabalhar isso até hoje, esse “medo patológico de fazer barraco”), eu me limitei a continuar negando e a apressar o passo. E ele ia no meu encalço! Eu estava assustada, exasperada, por que aquele cara não ia embora?!  Foi quando meu irmão apareceu… ele ia me encontrar no caminho mesmo, já que nosso horário de chegada seria parecido. Meu irmão, embora mais novo que eu, é alto, meio “armário”… um amor de pessoa, mas o porte intimida um pouco. Assim que ele acenou pra mim e fez questão de ir em minha direção, o homem simplesmente sumiu. Fugiu.  Pois é… homem só se intimida com/respeita outro homem. Nós, mulheres, não podemos ter voz, não podemos dizer “Não” – eu fui educada, mas sinceramente, quantos NÃOS eu disse pra ele??? E ele nem se tocava, insistia…  E eu era um tanto inocente na época. Acreditava que fosse um maluco…  Só depois, ao ter mais contato com páginas como esta, foi que percebi que não se trata exatamente disso. Ele nem estava REALMENTE interessado na minha pessoa (talvez no corpo, mas não na pessoa). O maior prazer dele foi me acuar, foi exercer domínio sobre uma moça que não tinha coragem (como eu me amarguro ao pensar nisso!) de se defender sozinha.   Não era uma questão de atração, era uma questão de poder.  Esse desejo de controlar, de exercer poder… não depende de por onde estamos andando, de como nos portamos, de como estamos vestidas. Fico vendo relatos de gente que foi abordada à noite, em locais ermos ou vestindo minissaias e aí vejo respostas pseudomoralistas: “Ah, mas você precisa se dar o respeito”, “Ah, mas olha como você tava vestida”, “Mas o que você estava fazendo na rua/naquele lugar àquela hora?”. Como se isso justificasse o desrespeito…  Portanto, senhores moralistas, por favor me expliquem: plena luz do dia, perto da hora do almoço. Avenida central da cidade. E quem se lembra do meu relato anônimo sobre minhas desventuras com os namorados de minha mãe  [link no início da postagem] certamente entende que tenho um certo trauma de me vestir de forma mais “chamativa”. Eu estava de jeans (“normal”, não aquelas coladas de cintura baixa), uma blusa comum e tênis, voltando da faculdade. E eu não o estava ignorando em silêncio… eu dizia NÃO, NÃO, NÃO e me afastava numa tentativa ÓBVIA de ficar longe dele.  Por favor, senhores “mas-você-estava-pedindo-devia-se-dar-o-respeito”, me expliquem o motivo de aquele infeliz ter me abordado! Seria minha aparência mais “recatada”? Como devo me vestir, então? Devo me trancar em casa?  (Ah, sim: naquela época já não morava mais com a minha mãe, mas com minha avó que acolheu a mim e a meus irmãos de braços abertos depois de tudo o que nossa mãe nos fazia passar com suas péssimas companhias).  Enfim, eu estava “pedindo” pra ser abordada? Deveria tê-lo agredido a socos e a pontapés porque “NÃO” é uma palavra ambígua demais e passível de interpretação oposta mesmo quando se está nitidamente tentando ir embora? A culpa foi minha por ele não ter entendido o que deixei MAIS DO QUE CLARO de forma educada, mas firme?  Ah, não, eu não poderia agredi-lo! Afinal, pra esses senhores, eu sou uma mulher, portanto jamais devo me portar de forma agressiva/incisiva. Deveria dar um sorrisinho e continuar andando e o ignorando enquanto ele caminhava ao meu lado… até o momento em que ele me agarrasse ou me puxasse para algum carro ou lugar onde pudesse fazer o que queria, ou sacasse alguma arma. Aí eu poderia assumir o papel de vítima que me cabe, chorando e sofrendo em silêncio porque, por ter me mantido quieta, eu TERIA PEDIDO POR AQUILO, NÃO É MESMO???  Ah, e tenho mais relatos, também! Mas vou parar por aqui ou vão se cansar de mim, hahaha!  Obrigada pela atenção…”