Cantada 416

416 – Olá, pessoal! Há tempos acompanho essa página e acho a iniciativa muito positiva.   Já li relatos perturbadores aqui e sinto muito por tudo o que aconteceu com vocês; acontecimentos assim provocam em mim, ao mesmo tempo, uma sensação de ódio – esses babacas se acham no direito de invadir nosso espaço, de nos humilhar – e impotência – infelizmente, essas atitudes são corriqueiras.  Felizmente, nunca fui estuprada ou agredida fisicamente, mas os danos psicológicos que os assédios sexuais em locais públicos causam – e causaram – em mim foram muitos. Não consigo andar despreocupadamente na rua – quando consigo, há algum idiota que interrompe a minha felicidade -, sempre olho para trás e para os lados como forma de ver se não estou sendo seguida, mudo de calçada para evitar bares e botecos. De noite, tudo piora: até chego a andar com um guarda-chuva numa mão e com o spray de pimenta na outra.  Dentre tantos momentos que eu poderia compartilhar com vocês, escolhi um que, particularmente, me chocou bastante, seja pela minha idade na época, seja pelo modo como foi feito. Quando tinha por volta de 11 anos, estava andando com a minha mãe numa rua um tanto movimentada próxima ao metrô Ana Rosa, em São Paulo. Não estava usando nenhuma roupa “provocativa”, veja bem, apenas uma camisa social, calça jeans e um par de botas. Íamos andando tranquilamente, conversando e aproveitando um dia agradável quando, sem motivo nenhum, passa um carro em alta velocidade, com um animal gritando bem alto pela janela: “GURIA, PROSTITUTA, TE COMI NA AUGUSTA”. De imediato, mostrei o dedo do meio; ele, por sua vez, riu da minha cara e continuou seu caminho, como se estivesse tudo bem.  Atualmente, eu sempre procuro reagir: mostro o dedo do meio, mando se foder, faço um escândalo, mas não posso negar que dá um certo medo. Quem sabe como esse idiota vai reagir? E se ele tentar me bater? Por esses motivos, nunca saio de casa sem meu spray e meu guarda-chuva, objetos que me dão mais confiança e proporcionam certa segurança num mundo tão machista como o nosso.   Por fim, recomendo a todas que se imponham, que mostrem sua insatisfação, que peçam respeito. Andem com objetos com os quais possam se defender; se possível, façam aulas e alguns cursos de luta. Não podemos nos omitir.”  Nayara Brischi