Cantada 419

419 – “Quando eu ainda frequentava o ensino médio, eu combinei de encontrar um colega a algumas quadras do meu colégio. Eu não costumava sair sozinha por ai, mas como não tinha ninguém para me acompanhar e eu já tinha marcado de encontrá-lo pensei que não iria acontecer nada demais. Segui caminho para o meu destino e entre o prédio que havíamos combinado de nos encontrar e a rua onde estava eu encontrei um dilema: passar por uma via de 6 faixas movimentadas ou por uma passarela subterrânea que, a luz do dia não parecia tão intimidadora. Medrosa com transito como sou, decidi passar pela passarela estreita e aparentemente vazia. Me deparei com um rapaz, uma moça e nenhum perigo, aliviada fui procurar meu colega. Não demorou muito para eu ter de voltar para o colégio pra encontrar meu pai então ainda a luz do dia pensei que aquela passarela seria tão inofensiva quanto havia sido antes e decidi pegar o mesmo caminho na volta, ai que as coisas aconteceram. Ainda descendo as escadas ouvi alguém miando, como um gato. Achei estranho mas não dei muita bola, alguns passos adiante me deparo com um rapaz urinando em uma das paredes e miando. Incomodada acelerei o passo afim de chegar ao fim do caminho que, na ida, havia sido curto quando o rapaz se virou (com as calças abaixadas) na minha direção: ‘oi gatinha, ví você passar aqui mais cedo, sabia que você ia voltar’ e começou a me seguir, daquele jeito, ‘com as vergonhas de fora’. Eu corri e não olhei pra trás. Eu tinha mais ou menos 16 anos e no desespero não consegui fazer muito além de correr desesperadamente até meu colégio e ligar pros meus pais se apressarem e irem me buscar. Decidi contar essa história longa e chata porque às vezes eu acho que ainda existem pessoas que acreditam que as cantadas se resumem em elogiar as mulheres de forma ‘inocente’, ‘desinteressada’ só pra inflar o nosso ego. Mas nas ruas não é assim. Eu hoje não consigo andar pelas ruas da minha cidade sem ter medo de cada homem que passa perto, não consigo pegar ônibus sozinha com medo de ser agredida psicologicamente desse jeito, não consigo ver os homens com a inocência que eu via antes. Eu nunca me senti a vontade pra falar pra ninguém sobre esse caso, mas eu estava com isso engasgado a tanto tempo na garganta…Eu precisava desabafar.”