Cantada 436

436 – “Quando conheci essa página logo pensei em mandar meu depoimento. Já passei, como toda mulher, por maus momentos com esses infelizes que nos assediam nas ruas. Comecei a escrever o texto, mas aí observei que os depoimentos das mulheres na página se tornavam cada vez mais sérios e dolorosos. Não era mais o palavrão ou assobio de passagem, eram casos de abuso sexual e até estupro. Perto do que eu lia, meu depoimento era leve, tinha um tom meio jocoso, como quase tudo o que escrevo. Tive medo de parecer leviana, e desisti de enviar para vocês, mas publiquei em meu próprio blog. Se alguém tiver curiosidade, o link está no fim do texto. Mudei de ideia de novo porque fiquei pensando na sensação de vergonha experimentada por muitas mulheres e a dificuldade em reagir que tantas já relataram. Por que nunca senti tanta vergonha, a não ser, talvez, quando ainda era muito criança e não conseguia nem entender o que os caras diziam? Por que comecei a revidar muito cedo, às vezes até um tanto imprudentemente? De onde tirei a coragem, eu que sempre fui tremendamente tímida, de me aproximar do carro de onde eu tinha visto sair o imbecil que me disse uma obscenidade dentro de uma loja, e relatar o que aconteceu para a pobre da mulher dele, que o esperava com duas crianças e mais uma na barriga? Por que eu digo coisas do tipo “tio, vai pra casa que a tia está te esperando com a sopa”, “sou linda mesmo e você é um bosta” ou “se eu quisesse um idiota como você comprava um e mandava matar” ou, o que mais deixa os caras irados, “não tenta disfarçar que todo mundo está vendo que você é gay, está escrito na sua cara”. Depois de dizer essas coisas, os palavrões que os caras falam chegam a ser engraçados.  O que eu queria dizer pras meninas que sentem vergonha é o seguinte: eu nunca senti porque meus pais nunca me fizeram pensar que a culpa era minha. Sempre ficaram a meu lado quando me queixei e nunca me disseram para eu não sair de saia curta porque os homens “mexeriam” comigo. Essa bobagem comecei a ouvir das amigas, só na faculdade, porque antes eu não tinha amigas. Com o apoio da família a gente fica mais forte. Homens machistas e degenerados são assim, a vergonha deveria ser deles, não nossa. Vamos brigar para banir esse comportamento, vamos reagir quando for possível, mas não vamos sofrer por causa disso porque não vale a pena.  Com a idade isso melhora, os caras sabem que as meninas mais jovens são vítimas mais fáceis. Hoje os homens ainda me olham muito, quando o olhar me incomoda faço uma careta ou gesto agressivo, mas as agressões verbais diminuíram muito. Para terminar, conto a última que ouvi. Um rapaz muito novinho passou por mim, lá na USP, soltou um suspiro e disse para si mesmo: “Ah, se eu fosse mais velho …” . Esse eu não xinguei, até achei engraçado. Link do texto do meu blog: http://diadegreve.blogspot.com.br/2012/11/brigando-na-rua.html”   Marina Macambyra.