Cantada 439

439 –    “Meu relato é uma das provas de que se ao invés de ensinarem mulheres a temer ensinassem homens a não estuprar teríamos uma sociedade menos misógina:  Recentemente fui a uma festa de república com duas amigas. Chegando lá havia poucas pessoas, mais homens que mulheres. As amigas conheciam apenas o cara que nos convidou e mais ninguém na festa. De saída fiquei ligada porque assim que chegamos fomos tratadas como as ‘atrações’ da noite (antes estávamos em outra festa e ‘arrumadas demais’ para uma simples festa de república). Desde a hora em que chegamos meu radar apitou. Começamos a beber e dançar, mas eu não conseguia relaxar, pois percebia que alguns rapazes invadiam nosso espaço, se colocavam atrás de nós para dançar, tentavam passar a mão, olhavam de modo insistente e furtivo, incentivavam que minhas amigas bebessem deliberadamente, misturando bebidas (e eu sei que ambas não têm costume de beber), e até parabenizaram o cara que foi nos buscar por nos ter levado até lá. Em determinado momento, cansada das conversas estúpidas, fui pra outro ambiente da casa e comecei a conversar com um dos rapazes, que parecia ser um cara legal e dei as costas para a sala. Percebi que alguém tinha apagado as luzes e fui ver como minhas amigas estavam. Quando tentei levá-las para o banheiro para conversar e dizer que meu sentido do absurdo tava dizendo pra irmos embora um dos rapazes invadiu o banheiro e agarrou uma das minhas amigas; tentou fechar a porta e eu meti o pé, não deixei. Ela gritava ‘não, para’ e ele empurrava o corpo contra a porta. Consegui entrar, empurrá-lo e tirá-la dali. Enquanto eu ‘salvava’ essa amiga, outros dois rapazes começaram a ‘dançar’ com a outra, mas claramente invadindo o espaço dela, tentando passar a mão. Ela dizia ‘não, assim não’ e eles continuavam. Chameia-as, já em pânico, tentei explicar o que estava acontecendo, que corríamos risco ali, mas nessa hora elas disseram que estava tudo bem, que a situação estava sob controle, que queriam se divertir. Voltei a conversar com o rapaz que era o aparentemente mais sensato, quando ouvi minhas amigas gritarem. Saí correndo e vi que enquanto dois agarravam uma, outro segurava a outra, contra a vontade de ambas, frente aos gritos de ‘não, para’. Não tive dúvida: empurrei, arranhei, gritei, belisquei, abracei uma delas e fui tentar salvar a outra. Dei um breve sermão gritando de que ‘não é não’, enquanto eles riam. O moço com quem eu conversava me ajudou, pediu desculpas. Mas eu estava tão assustada que só conseguia arrastar elas pra saída, queria sumir dali. O amigo delas foi nos levar e eu estava completamente em choque, tremendo, enquanto minhas amigas ‘riam’, achando que a noite tinha sido ‘muito louca’ e que elas estavam sendo ‘cobiçadas’. Frente a uma TENTATIVA DE ESTUPRO, frente ao perigo claro que TODAS sofremos naquela noite, elas acharam ‘divertido’. E se eu não estivesse lá? E se as coisas tivessem ‘evoluído’ pra um estupro? E se eles chegassem às vias de fato sem o consentimento delas? Eu tentei conversar depois, tentei explicar, mas eu sempre sou a ‘feminista chata que não sabe se divertir, que não relaxa’, apenas uma delas consentiu de que foi uma situação de risco real. O que me deixa em pânico é imaginar quantas outras ‘festas’ dessas acontecem todos os dias, quantos outros moços, estudantes exemplares, excelentes profissionais, embriagam mulheres para elas ficarem mais ‘facinhas’. E pior ainda é pensar que se fosse um caso distante de nós elas provavelmente culpariam as vítimas dizendo que ‘o que as meninas foram fazer numa casa cheia de homens? Por que beberam? Por que estavam de roupa curta? Não foi estupro!’. Sei que esse não é o escopo da página, mas eu precisava ‘gritar’ minha indignação com essa cultura de estupro, com essa sociedade machista que quer nos ver humilhadas, caladas e de joelhos, passivas à violência. No primeiro momento, passei pelo pensamento ‘será que eu estou exagerando? será que todos só queriam se divertir? será que eu não relaxo nunca e acabo estragando a diversão dos outros?’ e só hoje caiu a ficha de que eu não estou exagerando, que aqueles moços exemplares, orgulho de pai e mãe são os filhos perfeitos do patriarcado e que teriam estuprado sim a mim e a minhas amigas caso a situação tivesse ido mais longe. Não quero nem pensar se já não se utilizaram dos mesmos artifícios torpes para fazer o mesmo mal para outras mulheres. Parafraseando a autora de um guest post do blog da Lola da última semana: “Eu preciso do Feminismo para não ser vítima mais uma vez, para não deixar que outras mulheres sejam vítimas e para ensiná-las a reagir, a não temer, como eu aprendi”.  (desculpem-me, o relato dessa vez ficou grande, mas escrevo em lágrimas, aliviada por ter conseguido escapar e em pânico por pensar que outras mulheres passaram/passam/passarão por isso)”