Cantada 440

440 –  “Esse relato simplesmente demonstra como mulheres não são levadas a sério simplesmente de todas as maneiras possíveis.  No domingo eu saí com uma garota. Pra constar, porque infelizmente isso é relevante pra esse tipo de relato, ela estava de camisa, jaqueta e um short bem curto. Fomos pra Augusta e sentamos num bar pra beber do lado de fora. Desde que chegamos, um cara ficou olhando pra nossa mesa. Quando resolvemos mudar pro lado de dentro por causa do frio, ele entrou também. Até aí, tudo beleza, não aparentava ser desprezível, apenas curioso demais. Resolvemos sair do bar e dar uma volta pela Paulista e, na porta, ela parou pra acender um cigarro; o cara chegou perto e ficou olhando pra ela com cara de besta. Ela apagou o isqueiro, olhou pra ele com cara de interrogação. Ele disse “Oi.” Ela respondeu um “oi” seco e acendeu o cigarro. “Qual seu nome?” Ela respondeu. Ele perguntou o meu, e eu respondi. Então ele começou a falar alguma besteira tentando flertar e ela respondeu “Estou com ela” e apontou pra mim. “Ah, é que você é muito linda”. Eu disse “é, a gente sabe”, peguei a mão dela e começamos a subir a Augusta. Sério, que parte de “estou com ela” você não entendeu? Eu sou invisível? Ou eu simplesmente sou café com leite porque sou mulher? Mulher com mulher não vale, então tá liberado flertar com os dates dos outros na caruda? Se foder, viu. Enfim. Na avenida, passamos por dois caras, um segurança e um que parecia ser bombeiro. Os dois, encarando as pernas da menina, que estava de braço dado comigo, fizeram um som parecido com um “fiu-fiu”. Parei. “O que que foi?”, perguntei. Os caras fizeram caras de bobos. “O que foi o que?”. “Eu ouvi o que vocês fizeram. Tão fazendo gracinha por quê?”. O segurança tirou o celular do bolso e disse que estava falando ao telefone. Eu, que não tenho paciência, disse que eu não sou idiota. Os dois insistiram que, misteriosamente, fizeram o mesmo som ao mesmo tempo porque um deles falava no celular. Eu disse que eles eram babacas e não tinham que fazer gracinha com mulher nenhuma na rua. Nisso o segurança veio na minha direção me chamando de “moça, moça, segue teu caminho”, enquanto a garota com quem eu estava puxava meu braço pra que fôssemos embora. “Ah, é o caralho, para de mexer com mulher na rua, idiota, que isso não te faz ganhar nenhuma delas”. Quiseram discutir, só mandei se foder e continuei andando. Cinco segundos depois, nós duas ainda de braços dados, passam dois skatistas olhando pras pernas da menina. “Nossa, aí sim, que delícia”, ou algo parecido eles disseram. Com menos paciência que antes, gritei: “Vão se foder, seus babacas, respeitem, porra!”. “Vai se foder você”, eles responderam, eu gritei um pouco mais de volta “Para de mexer com mulher na rua, seu merda!” e continuamos andando de braços dados. Poucos metros adiante outro cara passa por nós “comendo a menina com os olhos”. Que raiva. Não vou sair tirando satisfação por olhos esbugalhados que duraram três segundos, até porque não sou ciumenta, eu simplesmente acho invasivo e teria respondido se fosse comigo. Mas que raiva, sério. E eis um fato: fosse um cara, qualquer cara, ao lado dela, e nenhum daqueles babacas teriam feito gracinha. Primeiro porque homens se respeitam mais do que respeitam mulheres. Segundo porque, pra machistinhas de merda, se tem duas garotas claramente juntas, elas estão lá pra entreter, e não porque possuem verdadeiro envolvimento. Digna de respeito é a relação homem x mulher. O resto é lixo. Só que não. Eu quero é que esses babacas vão se foder e garanto uma coisa: se pelo menos duas de cada três mulheres que eles abordassem respondessem à altura, eles parariam de fazer, porque ninguém quer ficar levando patada. É importante que nos afirmemos. “Estou aqui, vejo você, ouço o que você diz, babaca machista. E quero que você me deixe em paz e vá pra casa do caralho”. É isso aí. Eu tô cansada de ser vista como brinquedinho pra usufruto masculino. Respondam. Xinguem. Encarem. Ridicularizem. Desmanchem os sorrisos nas caras deles. Que uma hora esses caras vão saber que do lado de cá só tem gente que acha todos eles uns merdinhas dignos de pena e desprezo.”