Cantada 441

441 – “Vim aqui pra contar algo que aconteceu comigo quando eu tinha só 15 anos. Eu nunca contei isso pra ninguém, mas achei que chegou a hora de me abrir.  Quando eu tinha 15 anos uma prima minha do interior veio morar na minha casa, que é na capital, pra poder estudar. Nessa época eu saía muito com uns amigos “metaleiros” (odeio esse termo) e ela, por não conhecer ninguém na cidade, acabava saindo com a gente mesmo não curtindo o mesmo estilo de musica. Não demorou muito até ela começar a ficar com um carinha desse grupo.  Algumas semanas depois minha mãe viajou para o interior e levou minha prima com ela. Eu, como a maioria das adolescentes nessa situação, resolvi convidar esse meu grupo de amigos pra uma festa lá em casa. O carinha que tava de rolo com minha prima também foi.   Quando foi ficando de madrugada, todo mundo começou a ir embora. Exceto por uma amiga minha que já tinha pedido pra dormir lá em casa e esse carinha que deu a desculpa de que o ônibus dele não passava depois de certo horário. Então eu mostrei pra ele o quarto do meu irmão (que também tinha viajado com minha mãe) e disse que ele podia dormir lá. Nessas horas eu já estava completamente bêbada, mas ainda lembro de tudo com detalhes. Lembro que eu e minha amiga fomos dormir, eu na minha cama e ela na cama da minha prima. Lembro até do fato de que eu tava tão bêbada que nem tirei a roupa que tava usando, dormi de calça jeans, maquiagem e até lente de contato. Mas a partir do momento em que eu deitei na cama eu já não lembro de mais nada.  No dia seguinte, não sei bem que horas eram, eu acordei porque tava sentindo muito calor. Quando virei pro lado eu percebi que o carinha que era pra ter dormido no quarto do meu irmão, estava alí, deitado na minha cama ao meu lado. Ele estava só de cueca e eu estava sem minha calça jeans e sem calcinha. Minha amiga tava dormindo tão pesado na cama ao lado que até roncava. Então eu acordei o carinha e perguntei o que ele tava fazendo na minha cama e ele com a maior cara de cínico respondeu que foi ao banheiro a noite e errou de porta.   Eu não tive coragem de questioná-lo sobre o fato de eu estar sem calcinha. Era como se eu não quisesse saber a resposta. Então me vesti e mandei ele embora imediatamente. Quando minha amiga acordou eu perguntei se ela tinha notado algo estranho durante a noite, ela disse que meio que ouviu uns gemido e algo que parecia choro, mas achou que estava sonhando e nem se preocupou. Nunca tive coragem de contar pra ela o que aconteceu. Quando eu fui fazer xixi naquela manhã, ardeu como nunca tinha ardido antes e ficou ardendo assim por uns dois dias. Eu era virgem e essa foi a unica maneira que eu tive certeza que naquela noite houve penetração.   A unica pessoa pra quem eu contei foi a minha prima, mas foi mais pra alertá-la do tipo de cara que ela era. Ela brigou comigo, disse que eu não deveria ter bebido tanto, disse que eu devia ter dado em cima dele a noite toda. Ela nunca mais falou comigo e depois de alguns dias ela decidiu sair lá de casa. Nunca tive coragem de contar pra minha mãe pois tive medo de ela ter a mesma reação e me culpar, me colocar de castigo por eu ter feito uma festa sem permissão e até me expulsar de casa (ela já tinha feito isso outras vezes por muito menos).  Por muito tempo eu me senti culpada pelo que aconteceu. Achava que se eu não tivesse bêbada eu teria tido forças pra dizer não pra ele. Ficava me culpando por não ter mandado ele ir embora quando todo mundo foi, antes de eu ir dormir. Me senti uma fraca por nunca tê-lo confrontado. E me senti muito sozinha por nunca ter tido ninguém pra conversar sobre isso.   Eu não entendia como eu poderia ter dado algum sinal pra aquele cara de que eu tava afim dele. Ele era escroto, não fazia meu tipo de jeito nenhum e ainda por cima eu achava ele um chato. Nunca entendi o que minha prima via nele. Na verdade, naquela noite eu estava afim de fica com um outro cara do grupo, mas ele bebeu de mais e passou mal e foi embora.   Outra coisa que eu questionava era se o carinha tinha premeditado de fazer isso comigo ou se ele só sabia que tinha duas meninas dormindo no quarto e qualquer uma tava valendo. Depois desse acontecimento esse cara começou a espalhar pro nosso grupo de amigos que eu era uma vadia e todos aquele nomes lindos que se dá à uma mulher. Ele nunca contou o porque dele achar isso, mas a gente bem sabe que pra estragar a reputação de uma menina não é necessário motivos de verdade, né? Eu acabei me afastando do grupo pois não aguentava a humilhação. Anos depois eu entendi que eles não eram meus amigos anyway.   Apesar da raiva que minha prima ficou de mim, ela sempre foi muito discreta e nunca contou isso pra ninguém. Esse ano eu faço 30 anos, quer dizer que convivi com isso durante metade da minha vida. Minha prima ainda não fala comigo. Mas eu superei tudo isso, essa experiência não me machuca mais. Só que por algum motivo eu senti que era hora de compartilhar com o mundo, mesmo que seja anonimamente.”