Cantada 442

442 –  “Essa página tá abrindo meus olhos. Antes algumas situações isoladas em que eu julgaria apenas sendo uma situação inconveniente, hoje olhando pra trás eu vejo que era machismo. O que vou contar agora é exatamente isso, hoje eu vejo que era machismo. Me identifiquei demais com o caso que uma menina contou agora a pouco. Passei por uma situação parecida, fui a uma festa com uma amiga, ela dormiria na minha casa então foi de carona comigo. Bebemos um pouco mas nada demais. Lá pelas tantas minha amiga começou a ficar ”bebinha”. Nisso os caras vendo uma oportunidade de chegar nela, começaram a dar tapa nas nossas bundas quando passavam, a falar grosserias, enfim… Fechei a cara e fiquei muito brava. Falei pra gente sair dali, porr*, eu não curto gente desconhecida me tocando, ainda mais me dando tapa na bunda achando que assim vou cair de amores por eles(Rapazes, se estiverem lendo, não é assim que se conquista uma mulher). Ela, como já estava sob o efeito da bebida, não me deu bola e pediu pra eu parar de ”ser chata”. Disse que não era nada demais, que eu tava ”imaginando coisas”, que era só brincadeira dos caras e não falta de respeito (oi?). Fiquei muito puta, mas fiquei ali porque nessa hora e bebida já tava falando alto por ela, não ia deixar ela sozinha com um bando de caras desconhecidos, óbvio! Eis que passa uns caras e falam: ”Olha só, aquela ali (a minha amiga) deixa pegar na bunda dela, essas são duas safadas isso sim, tão querendo…”. Aí eu não aguentei, disse pra respeitar, que ela tava bêbada (e realmente estava, ao ponto de tropeçar quando andava) e que ninguém ia encostar na gente. Daí veio a frase mais clássica do mundo: ”To falando da tua amiga gostosa, não de ti, sua baranga. Vai se foder vagabunda!” (Seguindo a lógica machista, qualquer mulher vira uma baranga, vagabunda e mal comida quando se recusa a aceitar esse tipo de coisa). Pasmem, minha amiga caiu na risada. Não só caiu na risada como tropeçou ao tentar ir atrás dos caras que tinham acabado de dizer que ela ”tava querendo”. E nesse tropeço ela caiu no chão e apareceu a calcinha dela. Eu ajudei ela a levantar, quando nisso os caras voltaram e foram os 3 elogiar a calcinha dela. Fechei a cara e puxei ela pra fora (estávamos na área de fumantes), aí os babacas resolveram puxar ela pra dentro, e ela quase caiu no chão de novo. Ai eu soltei e falei: ”Olha Fulana, eu tô indo embora! Você veio comigo, vai voltar também? Eu não tenho obrigação nenhuma de aturar tarado em balada.” Aí ela ficou braba! Disse pra mim que ia pra casa deles (sim!), que eu era uma baranga invejosa, que não tinha ninguém e que por isso eu não queria que ela tivesse alguém também, que ela não tem culpa se ela é mais gostosa do que eu (olha os papos) e que os caras cobiçam ela. Eu falei pra ela que eles estavam atrás dela porque ela tava bêbada, que queriam se aproveitar, e que era pra ela ir embora comigo se quisesse porque eu estava indo embora. Aí os 3 patetas começaram a rir e a dizer ”a gostosa fica, a baranga vai”, e a minha amiga se deliciava com isso, sério. Fiquei chocada. Peguei minha bolsa no guarda-volumes e fui. Ao chegar no carro, quem vem correndo, descalça, pedindo pra ir embora comigo? A minha amiga! Levei ela pra casa dela, sinceramente depois de ouvir tudo aquilo eu não tinha cabeça pra passar o final de semana com ela. Levei ela, a mãe dela atendeu a porta, expliquei que ela tinha bebido demais e apenas isso, e fui pra casa. No outro dia ela me liga sóbria obviamente, me chamando de todos os nomes possíveis, inclusive de baranga, invejosa, vagabunda e mal comida, por tê-la levado pra casa naquele estado, na frente da mãe dela, que eu fiz tudo aquilo por inveja de não ser cobiçada como ela. Disse que não queria mais papo com ela, que ela era uma falsa e que deveria agradecer por ter alguém que zelasse pela segurança dela. Não nos falamos mais, até hoje. Na cabeça dela, creio eu, que eram apenas 3 caras tentando se divertir na maior das boas intenções, mas pra mim, me desculpe. Ninguém sai por aí dando tapa na bunda de desconhecida, chamando de vagabunda, dizendo que devia levar uma ”surra de piru na cara” com boas intenções.”