Cantada 445

445 – “Relato longo, só avisando.  Quando eu tinha 15 anos, estudava com uma amiga e nós costumávamos frequentar a casa uma da outra depois das aulas. Sempre fui muito bem recebida pelos pais dela e também me dava bem com eles. Não sei por onde começar a abordar o momento em questão, então vou direto ao ponto. Numa das vezes em que eu fui pra lá, o pai dela deveria me deixar num ponto de ônibus e então levá-la para a aula de dança, mas resolveu fazer o contrário por causa do horário da aula dela. Eu, que sou paranoica, não gostei muito, mas disse que tudo bem. Depois que ele deixou ela na aula, ele seguiu dirigindo e começou a puxar um papo que eu, sinceramente, não sei especificar do que se tratava, só sei que minha luz de alerta começou a piscar fraco. Era algo sobre como ele achava bonita nossa amizade, que me achava uma ótima menina, que os amigos da filha dele são amigos dele também. O cara colocou a mão no meu joelho. Então ele disse que precisava passar no apartamento antes, e depois me dava a carona. Insisti que o ponto de ônibus era suficiente, e ele insistiu que passaria primeiro em casa. Quando parou o carro, insistiu que eu subisse. Eu disse que não tinha nenhum problema em esperar no carro; ele insistiu, porque poderia demorar. Primeiro diálogo interno: “Se eu me recusar a subir, o cara vai achar que eu desconfio dele. Mas eu desconfio mesmo. Mas ele é pai da minha amiga, e pode se ofender. Mas pode ser pior subir. Mas ele pode dizer algo pra minha amiga, que pode deixar de ser minha amiga. Não quero subir. Vou ter que subir”. Subi, entrei, vi que não tinha mais ninguém em casa. Segundo diálogo interno: “A porta tá trancada. Mas o cara é pai da minha amiga, casado, duas filhas, só tenho quinze anos, pelo amor. Mas e se acontecer alguma coisa? Será que se eu gritar alguém ouvir? Mas espera, esse é o pai da minha amiga. Mas pra quê subir se dava 2 minutos até o ponto de ônibus de carro? Sei lá. Daqui a pouco vamos embora.” O cara foi tomar banho. Ainda sentada no sofá, com o uniforme da escola, comecei a tremer. Terceiro diálogo interno: “E se eu for embora agora? O que será que vai acontecer? Ele vai saber que eu tava desconfiada? Pode ficar bravo e vai ser pior pro meu lado. Será que a chave tá na porta? Preciso sair daqui. Mas ele vai ficar confuso, vai ficar ofendido, minha amiga vai ficar brava, parar de falar comigo”. Num dado momento, o cara saiu do quarto de cueca. Fiquei muda. Mesmo papo de amiguinhos, blablabla. Chegou mais perto e disse “me dá um abraço”. A barriga dele encostou na minha cara; a mão dele tava roçando no meu cabelo. Quarto diálogo interno: “É isso. Esse cara vai me estuprar. Ele vai me estuprar. A minha vida acabou. Não vão ouvir se eu gritar. Ele é mais forte que eu. Não vou poder contar pra ninguém. Minha amiga não vai mais ser minha amiga. Vão dizer que eu inventei, que é mentira. Eu vou entrar em depressão e não vou mais conseguir confiar nas pessoas. Terei sorte se conseguir transar algum dia na minha vida, se eu superar o trauma. Talvez eu não transe nunca, vou morrer virgem de transa desejada. Vão dizer que eu sou burra, que sou oferecida, que não tinha nada que ter subido. Vão dizer que eu mereci, por ter sido tão idiota. Caralho, esse cara vai me estuprar. A minha vida acabou. Acabou tudo.”  Pra ser sincera, até hoje, com 20 anos, eu não entendo nada disso. É claro que eu não sabia me impor, não sabia me afirmar. Isso muda. Isso mudou. Mas eu até hoje não entendo, não sei se ele bateu uma lembrando da minha cabeça vista de cima. Eu só sei que boa coisa ele não queria de cueca na sala, com a mão no meu joelho, com o papo de amigos. Eu podia ser mole, mas nunca fui burra. O fato é que eu felizmente não fui estuprada (cheers). Só coloquei os diálogos internos porque, apesar de a violência perpetrada contra mim por anos por eu ser mulher nunca ter chegado ao nível extremo de eu ser obrigada a fazer sexo com alguém, não tive coragem de contar isso pra ninguém até ano passado, porque lembrar disso me fazia tremer. Uma das piores coisas que já presenciei na minha vida foi essa certeza de que a minha vida iria acabar, de que eu seria alguém traumatizada e desamparada, de que iria me sentir suja pra sempre, seria ridicularizada, humilhada e desacreditada e não sobraria nada de bom pra eu aproveitar porque um escroto me invadiu pra tomar algo que nunca poderia ter sido dele; a certeza de que eu seria, inevitavelmente, violentada, e que tudo se acabaria numa gozada daquele cara. Certeza de que eu passaria a viver o resto da minha vida com medo. Era isso que eu achava. Tudo isso numa época em que eu nunca havia ouvido falar em “mentalidade/cultura do estupro”, numa época em que, apesar de acreditar no feminismo, eu não conhecia o feminismo.  Hoje eu não me culpo por ter sido meio molenga. Claro que, se fosse hoje, teria decidido: “não quero subir, não subirei”, mas nós mulheres somos meio que ensinadas a ser assim, molengas. A questão é: eu não fui estuprada e até pouco tempo atrás tremia de lembrar desse episódio. Então não consigo imaginar o que sentem as mulheres que já sofreram abuso. Hoje esse mesmo episódio me dá combustível, me faz levantar minha voz, me faz querer justiça. Mas quão difícil deve ser erguer a voz depois de ter chegado às vias de fato e ter sido realmente abusada?”  Só escrevi esse relato enorme (desculpem) porque sei que não entendo e nunca vou entender realmente a dor de alguém que tenha passado por isso, mas nós estamos JUNTAS e podemos nos apoiar umas nas outras. Escrevi porque sei que algumas pessoas subestimam a dor dos outros, e isso eu não farei. Repito: ESTAMOS JUNTAS. Nós somos nosso apoio. E nós vamos acabar com isso tudo. Juntas.  FORÇA e um abraço pra todo mundo aqui.