Cantada 446

446 – “O relato da garota sobre a voz interior, me moveu a escrever minha experiência. Apesar de ser criança na época, também tive esse alarme de que algo estava muito errado.  Hoje tenho 23 anos. Quando eu estava na 4ª série, no dia de entrega de boletins, meu pai não foi buscar e eu fiquei na frente da escola esperando por ele. Passou uma das minhas tias que morava no caminho entre a escola e minha casa, e me disse para passar lá quando estivesse indo embora. Esperei um pouco mais pelo meu pai e como ele não apareceu, fui embora. Passei na casa da minha tia e ela não estava, só o marido dela. Ele me disse que ela tinha ido na vizinha e já voltava e me falou pra entrar. Quando entrei, ele passou a chave na porta e aquilo já fez meu coração disparar. Eu era criança, devia ter 10 ou 11 anos e não sabia como agir. Andei pela casa tentando parecer natural. Em um momento ele parou atrás de mim e ficou me encoxando, passando as mãos no meu corpo e dizendo o quanto gostava de mim. Eu, muito confusa, saí de perto dele e sentei na mesa. Ele veio para o meu lado e continuou passando a mão em mim. Ele colocou o pênis pra fora da calça e começou a roçar no meu braço. Nesse momento eu não aguentei mais. Me levantei e mandei ele parar. Ele disse que não estava fazendo nada. Eu disse que se não parasse eu ia gritar e mandei abrir a porta. Ele abriu a porta e me pediu pra não prejudicá-lo e ainda disse pra eu dar um beijo no rosto dele (que nojo). Eu fui embora pra minha casa e por vários anos, não havia contado isso pra ninguém. Parei de ir em ocasiões de família onde sabia que ele estaria. Comecei a ter atitudes que hoje compreendo melhor. Por exemplo, parei de tomar banho e fiquei extremamente introvertida. Essa foi minha maneira, inconsciente, de não ser notada e não ser atraente por medo que isso voltasse a acontecer. Tinha muito medo dos homens e só fui ter o 1º beijo aos 21 anos. As únicas pessoas que sabem dessa história são meu 1º namorado e a psicóloga da minha universidade. Já pensei em denunciá-lo anonimamente, mas tenho medo. Hoje levo uma vida normal, apesar das sequelas psicológicas. As vezes tenho crises de depressão, mas no geral sou feliz.”