Cantada 456

[Trigger warning – relato de abuso infantil] 

456 – “Sei que isso é clichê por parte de quem já sofreu abuso sexual, mas: nunca compartilhei isso desse jeito, tão aberto assim, mas acho que é preciso, até mesmo pro meu próprio bem por achar que até hoje o acontecido ainda reflete e não me permite algumas atitudes na minha vida. Meio que tem um bloqueio sabe? Não me lembro com que idade começou, acho que com 6/7 anos, digo isso porque quando me mudei pra casa da minha vó, eu tinha 8 e era meu aniversário e estavam todos reunidos (e pra minha família isso era algo raro) e o abuso ainda existia. Ele era marido da minha tia. Não me lembro como aconteceu, eu juro que toda vez que penso eu tento voltar pro pensamento de quando começou pela primeira vez, eu cheguei a morar com a minha tia e ele por um bom tempo antes de se mudar pra casa da minha avó, morávamos eu, ela, meu irmão e ele. Meu irmão e eu só havíamos sido mandados pra morar com a minha tia porque como éramos pequenos e dois minha avó não dava conta e minha mãe trabalhava muito. E eu me lembro que nessa época ele mandava meu irmão ir brincar na rua pra ficarmos nós dois sozinhos e o abuso começava… como minha tia trabalhava a noite isso meio que facilitava e falando isso agora vem uma enorme pressão na minha cabeça lembrando de algumas cenas, me desculpe, mas é muita adrenalina falar isso assim. Continuando, depois minha mãe trabalhava com menos frequência no hospital e com isso fomos pra casa da minha avó e foi aí que eu consigo me lembrar dos abusos mais frequente, aí você para e pensa “como?” o problema era que todo mundo gostava dele e como a minha tia era a única filha casada ele era considerado quase um filho pra todos, filho, amigo pra toda hora, mas, não era bem assim. A casa da minha vó tinha 3 andares, e aos finais de semanas, todos, TODOS, minha tia e ele iam pra lá e eles tinham um quarto só pra eles lá no terceiro andar, e todo final de semana enquanto minha vó conversava com a minha tia, meu irmão brincando na rua e minha mãe nunca em casa era aí que acontecia o abuso… é terrível pensar que ninguém nunca subia naquela merda daquele quarto pra checar alguma coisa, você vê como confiavam tanto nele. Ele chegou a uma vez em um churrasco de família a botar a mão na minha calcinha dentro da piscina assim no cantinho e ficar mexendo no meu clitoris e porra eu tinha o que… 12/13 anos? Eu sei que voltando a casa da minha vó em um belo dia depois de acordar ele me penetrou (sim, porque por muito tempo eu só chupava, ou ele colocava a minha mão ou mandava eu ficar me esfregando ou enfiava no meu ânus por mais que seja inacreditável) na vagina e doía pra caralho eu me lembro que quando terminou eu fui ao banheiro e minha calcinha tava com sangue e doía quando eu fazia xixi, queimava muito foi quando eu me toquei que tava errado… a inocência é boa até uma certa idade nao é? e eu comecei a sair mais pra rua, pra brincar aos finais de semana quando eles estavam lá e foi ficando menos frequente o abuso.  Uma coisa que eu me lembro sempre quando penso nisso tudo é que em um dia antes do natal saiu eu, ele, e mais 2 primos pra comprar algo na rua e ele deixou meus 2 primos pra comprar algo e falou pra mim no carro se eu queria ver meu presente de natal, eu, criança, fiquei logo mega animada e fomos… ele me levou pra casa dele e da minha tia e me mostrou meu notebook de criança sabe e eu abri, brinquei e no final ele disse “agora que já te mostrei tira a blusinha tira…” e o resto eu imagino que você já sabe…  Até que um dia eu fui pra casa da minha tia pois minha avó tinha ido viajar e minha mãe é claro, trabalhando como sempre, não tinha como cuidar de mim e do meu irmão de novo, fomos pra lá no fds. Meu irmão não estava e eu tava na sala, minha tia grávida já de 7 meses no quarto e ele na cozinha e me chamou e eu me lembro que ele tava só de cueca e me pediu pra pegar algo no armário, eu subi, peguei e ele passando a mão na minha bunda, pernas, vagina daí desci e ele tirou o pênis dele de dentro da cueca e falou pra eu passar a mão e eu fiquei passando quando a minha tia entrou na cozinha e viu tudo eu fiquei com a mesma pressão na cabeça que eu to sentindo agora escrevendo isso tudo… ela me chamou pra ir no quarto e começou a me perguntar tudo, quando começou, como era, o que ele pedia pra fazer, eu só sabia chorar, chorar e chorar e falar que eu não queria ser presa se tivesse feito algo errado… engraçado que eu lembrando disso agora da uma imensa raiva por não saber que de fato era errado mas caralho era muito pressão e eu ainda não tinha processado que tudo aquilo era errado e eu era um criança sabe? eu sei que ela foi embora comigo e com meu irmão no dia seguinte e sempre perguntava se tava tudo bem comigo e se mostrou muito preocupada, fomos pra casa da minha avó e esperamos ela chegar, com ela veio outros familiares eu sei que eu fiquei no meu quarto na cama o dia todo e um tio meu veio chorando me perguntar se tava tudo bem e de noite veio minha mãe também… eu ficava calada sabe? eu ia falar o que? eu sei que foi o pior dia da minha vida porque mesmo calada eu me sentia muito mal, eu fiquei muito triste, calada por muito tempo. Eu me culpo as vezes… mas eu só me culpo porque hoje, com 18 eu sei que aquilo era errado, mas eu com 14 não sabia, então paro de pensar nessa culpa, eu era criança, inocente, assim como eu várias crianças também não sabiam então eu tenho que parar de pensar assim. Mas como eu queria ter tido essa noção… puta que pariu. Eu sei que por um tempo todo velho nojento que mexia comigo na rua eu sentia um nojo enorme e pensava no que aquele filho de uma puta tinha feito comigo. Em relação a ele, eu não sei dizer se foi pra cadeia ou não, até porque ninguém na familia fala sobre isso, muito menos a minha tia. Me sinto culpada pelo meu primo também, por ter sido o motivo dele não ter um pai, mas daí paro e penso: melhor não ter um pai do que ter um pai pedófilo que poderia ter feito a mesma coisa com ele. Isso faz anos sabe? mas parece que as vezes habita muito dentro de mim. Eu sou sensível e é só pensar nessas coisas que dá uma imensa raiva de chorar… fora o constrangimento de quando ta passando algo na tv relacionado a abuso e eu sinto que ninguém fica confortável olhando aquilo porque pensam que aconteceu comigo… nem eu acredito, porque tirando a culpa, o desconforto as vezes eu sou uma pessoa que se você conhecesse não imaginaria que passou por isso… na verdade ninguém imagina né… enfim, eu levo a vida do meu jeitinho, de bem, não deixo que isso me afete por completo porém, tenho um bloqueio enorme em relação a confiança em homens e creio que de fato seja em relação a isso, mas isso é mínimo perto de tantas outras coisas que eu realmente tenho que me preocupar. Nunca parei pra culpar ninguém nessa história, seja minha tia, minha mãe, minha vó… a não ser ele. Na verdade nem paro pra pensar nisso… já passou, é passado. Um passado que me ronda as vezes, mas, é passado. Culpar alguém agora não fará diferença alguma. Levo a vida e quem sabe levo até melhor por aceitar que isso aconteceu e que eu superei ou to tentando superar, tem dias que eu penso nas coisas que ele fazia comigo quase o dia todo e da vontade de me desligar por alguns minutos, porém, também tem dias que nem nisso eu penso, semanas e até chego a me perguntar a quanto tempo eu não lembrava. Mas enfim, é isso, obrigada por criar essa página pra poder compartilhar algo tão… como posso dizer… pessoal? algo tão obscuro, porque escrevendo aqui parte do que aconteceu durante muito tempo na minha vida eu confesso que to bem mais aliviada.  É com isso e tudo mais que eu vou caminhando por aí, um dia de cada vez.”