Cantada 467

467 – “Minha mãe conheceu uma mulher na escola da minha irmã. Elas começaram a se relacionar e viraram amigas. Essa mulher era casada e tinha 2 filhos. Ela começou a frequentar minha casa e frequentemente, contava sobre conflitos que tinha com seu marido. Ele a traía, e ela era muito submissa. Também percebi que ele era agressivo, ainda mais sendo policial. Sempre que havia alguma comemoração em casa, ela era convidada com sua família. Por volta dos meus 15/16 anos, em uma dessas reuniões familiares, eles estavam lá. No meu quintal tem churrasqueira e, portanto, eles estavam reunidos no local. Em um momento eu estava sozinha na cozinha e arrumando algo em cima da mesa, quando o marido dessa mulher, amiga da minha mãe, saiu do banheiro, já alterado pela bebida, passou por mim, passou a mão na minha bunda, piscou para mim e saiu da cozinha em direção ao quintal. Imediatamente eu fiquei apavorada, e sai correndo dali. Sem saber o que fazer, assim que vi minha mãe a chamei já chorando. Contei o que havia acontecido e a resposta dela foi que, ele estava bêbado, eu deveria relevar e que em hipótese alguma eu deveria contar aquilo para alguém, principalmente meu pai, pois senão a amizade deles seria afetada. Eu acatei, com muita raiva e me sentindo incompreendida. Não tinha coragem nem informação pra bater de frente, e também não tinha noção da gravidade do que aconteceu. A situação morreu aí. Depois desse episódio eu nunca mais entrei na casa da amiga da minha mãe se soubesse que ele estaria lá, e com o passar do tempo nem contato com ela eu tinha. Infelizmente, as famílias continuaram a se encontrar e ele continuou a frequentar a minha casa, até o momento que por brigas pessoais minha mãe deixou a amizade com ela. Eu esqueci isso por muito tempo, mas depois que comecei a me informar sobre o feminismo e suas lutas, a situação foi voltando e me atormentando. Até que recentemente, numa discussão com meu namorado sobre o feminismo, eu não aguentei e contei a situação, com muito medo da reação, confesso. Ele tinha que entender que o machismo também me afetou de uma forma muito agressiva. Ele ficou indignado e com raiva da minha mãe, mas eu acredito que ela seja tão vítima quanto eu fui, afinal, foi assim que ela aprendeu.  Eu ainda quero muito ter uma conversa com meus pais, pois a gravidade da situação poderia ser maior do que foi. Ele poderia ter entrado em casa, já que somos em quatro mulheres, enquanto meu pai não estava, com alguma de suas armas (afinal, como eu falei lá em cima, ele é policial e muitas vezes andava armado), estuprar e agredir a uma de nós ou a nós todas. Por sorte isso não aconteceu. Meu namorado quem me alertou sobre isso, e gostaria de deixar esse depoimento também como alerta: a maioria das mulheres cresce achando essa situação inofensiva, assim como a minha mãe achou. Também é muito importante lembrar que é POR ISSO que o feminismo precisa se propagar.  O relato é grande, mas necessário. Obrigada.”