Cantada 469

469 – “Vim compartilhar uma sandice minha.  Ontem eu saí com uns amigos, fomos a um bar pra comemorar um aniversário e, antes de irmos pra casa de dois deles, resolvemos passar no supermercado. Uma amiga e um amigo iam à frente, eu no meio tentando não pisar nas linhas (às vezes eu dou dessas) e mais três amigos vinham atrás de mim.  Estávamos nessa avenida quando ouço uma menina chorando. “Por favor, você tá me machucando, solta meu braço”. Olhei pra esquina e tinha um cara prensando ela contra um carro com a porta aberta, mais uns três caras, acho que amigos dele, e uma outra menina que parecia ser namorada de um deles observando a cena. E eis que começa a minha sandice: atravessei a rua, parei na frente da menina, perguntei: “Moça, você está bem?”. Um dos outros caras, o que tentava acalmar o babaca que a prensava contra o carro, disse “Ela está bem, está tudo bem”. Olhei pra ele: “Não falei com você, perguntei pra ela. Moça, você tem certeza de que está bem, precisa de ajuda?”. Ela disse que não e que estava tudo bem, e chorava. Eu disse que poderia ligar pra alguém se ela quisesse. Ela disse que não, que estava tudo bem. O babacão, obviamente, se irritou comigo, disse que era pra eu ir embora e cuidar da minha vida. Eu não respondi, fiquei só olhando a cena revoltante e ao mesmo tempo hilária. Hilária porque o cara era desses bombadinhos playboys metidos a donos do mundo. Careca, alto, sem camisa, fazendo cara de mau, muito provavelmente embriagado ou drogado — só faltava ter um “sou foda” tatuado na testa. Um dos amigos dele começou a segurá-lo enquanto ele ameaçava ir pra cima de mim. Eu apenas observei sem fazer nenhuma expressão. Por quê? Primeiro, vocês dirão, porque eu tenho instintos suicidas. Ok, essa eu vou ceder, o cara poderia ter uma arma, poderia ter me agredido e eu fui uma idiota de me meter ali — e se o grupo inteiro fosse de agressores e abusadores? Mas eu não pensei nisso. Eu fiquei encarando sem expressão porque ele era grande e musculoso, mais forte que o amigo que o segurava, e poderia muito facilmente ter se soltado e me metido um soco na cara. Acontece que ao invés disso ele só ficou bufando pra mim feito um touro na arena, me olhando com irritação sem soltar os braços, exibindo os músculos definidos quando poderia simplesmente ter me quebrado o nariz. Ele não queria me agredir, ele queria me meter medo pra me fazer ir embora e ficar de boca calada. Não sou trouxa e conheço o tipo (tenho uns parecidos até na família), não movi um dedo de onde estava. Olhei pra trás e meus três amigos estavam bem atrás de mim. Os amigos dele continuavam me dizendo pra ir embora, que estava tudo sobre controle (claro, tudo sob controle, esse babaca nitidamente chapado, sem camisa na garoa “tentando me avançar” porque eu tentei ajudar a menina que ele tentou agredir antes de eu chegar, tá tudo bem, tudo ótimo).  De qualquer maneira, não havia nada que eu pudesse fazer; só olhei bem pras pessoas que estavam com a menina, que ainda chorava, com nojo de todos eles. Eles foram se afastando, Eu e meus amigos anotamos a placa do carro do cara e fomos embora. Poucos segundos depois, paramos uma viatura da polícia que passava, informei o que houve e dei a direção. Vimos o carro da polícia entrar na esquina e sair de lá menos de trinta segundos depois. De dentro do supermercado, liguei pra polícia, informei o ocorrido, passei as direções e torci. Btw, como isso foi às 4h da manhã, ainda que fosse na porta de uma DDM, foi decidido pelo nosso querido governador de São Paulo que as Delegacias da Mulher não mais funcionarão 24h por dia, so… Na volta, um carro que havia passado por nós na hora do ocorrido parou e o cara perguntou se estava tudo bem, se o babacão tinha ido embora. Eu avisei pra ele sobre a polícia, ele disse que se visse o cara pelos arredores tentaria ajudar e denunciaria. Agradeci e fui pra casa com meus amigos.  Agora, menines e menines, não tenham instinto suicida. Façam o que eu deveria ter feito: ligar pra polícia imediatamente sem me aproximar do agressor. Eu segui o impulso de tentar ajudar uma pessoa que poderia ser eu, que já foi minha mãe, que é minha prima, que é e pode ser algumas de nós. Fiquei extremamente chateada porque sabia que ela não o denuncia por medo, porque deve achar que homem é assim mesmo, por qualquer um desses motivos que levem uma mulher a não denunciar seu agressor. Cheguei a chorar de raiva de ver que os amigos do cara não o condenaram imediatamente e que eu não podia fazer nada (porque se eu fosse do tamanho dele, ah, meu bem… just watch me). Fiquei estupefata com a outra menina que olhava tudo com raso interesse. Então eu fui lá porque na próxima pode não ser um apertão e uma prensa num carro. Na próxima pode ser um olho roxo. Na próxima pode ser um estupro. Na próxima pode ser morte por asfixia. E eu gosto de pensar que nós, desenvolvendo a consciência aqui e nos ambientes que frequentamos, não seremos as próximas a nos submeter, mas hei de convir que pode acontecer com qualquer uma. Porém sempre, sempre denunciem.  Não tenho como acompanhar o caso, mas espero que o idiota tenha sido parado por dirigir embriagado ou em altíssima velocidade, já que parecia fora de si.  E é isso. Força  Ps: fiquei tão puta que sonhei que um cara tentou me agredir num shopping e ninguém fez nada, mas eu o afugentei e depois fui tomar sorvete. RISOS”