Cantada 470

470 – “Demorei muito tempo para conseguir escrever isso. Não é fácil, nem um pouco agradável, mas se tem uma coisa que essa página me ensinou foi que existem muitas pessoas que passam as mesmas coisas que eu, que faz bem desabafar e dá força às outras que não conseguem fazer o mesmo. Eu sempre fui muito apegada aos meus avós. Sempre fiquei muito na casa deles, desde que nasci. Numa dessas ocasiões, quando alguns parentes de fora do estado vieram para a casa dos meus avós, meus pais me deixaram lá, para passar alguns dias com os primos e etc. Eu tinha seis anos. De noite todo mundo saiu, foram à igreja e me deixaram sozinha com meu avô, que estava bêbado. Hoje eu penso nisso como uma irresponsabilidade por parte daqueles que deveriam tomar conta de mim. Eu estava na cozinha, ele foi ao banheiro e me chamou. Me fez masturbá-lo. Ele começou a passar a mão pelo meu corpo, mas não passou disso. Depois desse episódio eu me lembro de algumas vezes que ele me pegou no colo (até os onze anos) e eu sempre sentia que tinha algo errado, que tinha alguma ‘maldade’ por trás. Acontece que eu me esqueci que isso tinha acontecido. As pessoas acham que é mentira, que não tem como esquecer uma coisa dessas, mas eu sei que o que aconteceu ficou bloqueado. Eu suspeitava de que tinha algo errado, mas não sabia de onde vinha a suspeita. Me lembrei do abuso aos doze anos, quando comecei a sentir ódio do meu avô. Contei para a minha mãe e ela não fez nada. Minha família é evangélica, muito conservadora, minha mãe me disse que isso ia destruir a família, que se eu tivesse contado na época ela teria feito algo. Três anos se passaram, até o dia que minha irmã chegou em casa, voltando da casa da minha avó, minha mãe foi dar banho nela, ela só tinha cinco anos, ela disse que estava dolorida. Minha mãe perguntou o porque, e ela contou que ele havia ‘mexido’ nela. Eu não aguentei ouvir, não sei até hoje o que ele fez com a minha irmã, ela não consegue falar. Minha mãe deu as mesmas desculpas. Ia destruir a família e etc. Não fez nada. Eu, me sentindo impotente, sem coragem de denunciá-lo, sem coragem de contar pra todo mundo, sem apoio, entrei em depressão. Me sentia culpada pelo que aconteceu com a minha irmã, pela minha covardia. Fiquei quase dois anos em depressão. Perdi minha bolsa na faculdade porque parei de ir às aulas. Não tinha vontade de nada. Quando minha mãe contou pra minha avó, ela não acreditou. Disse que era mentira minha e da minha irmã. Até hoje minha avó finge que não aconteceu nada. Em datas comemorativas ela me cobra porque eu não falo com ele. Uma vez ela me disse: ‘porque você faz assim com seu avô? o que ele fez pra você?’. Ela sabe muito bem. Mas eu não tenho coragem e nem forças pra falar disso de novo. Eu só quero esquecer.”