Cantada 471

471 – “Lendo os relatos sobre abuso infantil, lembrei do que aconteceu comigo. Meu caso não pode ser comparado à gravidade de muitos casos aqui. Não sei quantos anos eu tinha, mais ou menos entre 6 e 9, tinha uma família na minha rua que era muito pobre, um pai e duas filhas da minha idade, eu e uma prima costumávamos brincar com elas, a casa deles não tinha móveis, era de chão batido, eu não sabia que além da miséria, problemas muito piores aconteciam com as garotas. Um dia, elas me chamaram pra conhecer do pai delas, me convidaram pra entrar na casa, me lembro bem vagamente que ele passou o braço nos meus ombros, me apertando, de um jeito invasivo, aquilo me deixou sem graça. Ele disse que eu era bonita, depois tentou me beijar, eu não sabia direito o que ele estava tentando fazer, só sei que tentei desviar quando vi que ele estava vindo em direção a minha boca, fiquei com muita vergonha e me bateu um medo terrível. Nada mais aconteceu e eu saí de lá, nunca mais quis entrar na casa delas. Lembro exatamente da roupa que eu estava usando (um shortinho de malha amarelo e rosa e camiseta, roupa de criança pra brincar na rua), só me lembro porque na hora eu pensei que meu short era muito curto, eu era criança e já estavam incutidos pensamentos de culpa em relação à minha roupa, é surreal quando me lembro que me senti mal pela roupa que eu estava usando, tento me lembrar porque eu pensei isso e não consigo. Acho que não contei pra ninguém. Não devo ter contado, meus pais teriam feito algo se soubessem. Só depois de muito tempo, estudando sobre feminismo, reativei essa lembrança e percebi o imenso risco que eu corri e que minha roupa não tinha nada a ver com aquilo tudo. O período em que essa família morou na minha rua foi curto. Eles foram embora e nunca mais tive notícias. A última coisa que soube, há muito tempo atrás, me deixou arrasada. Uma das meninas engravidou ainda muito nova, adolescente, e de quem? Dele, do próprio pai. Há quanto tempo essas garotas vinham sofrendo abuso do pai pedófilo? Elas eram sozinhas, não tinham mais ninguém. Dependiam daquele monstro. Lembro do quanto elas se divertiam comigo e com minha prima, do quanto elas eram carentes, elas viviam um pesadelo e eu nem imaginava. Eu estive prestes a partilhar desse pesadelo com elas. Fico imaginando, hoje em dia, se acaso não teria o próprio pai pedido pra que elas me levassem pra dentro da casa deles. Quantas amiguinhas mais elas levaram pra lá? Será que elas saíram (quase) ilesas como eu saí? É muito triste pensar nisso tudo e saber que perdi totalmente as pistas sobre eles, que depois de ter consciência formada, o caso já tinha muitos anos. Pra vocês meninas que sofreram algum abuso, denunciem, tenham coragem! Essas pessoas são doentes e não podem ficar impunes, tornando a vida de muitas outras meninas um inferno. Pensem no sofrimento e no quanto vocês gostariam de que isso não se repetisse com mais nenhuma criança indefesa. Alguma coisa precisa ser feita! Obrigada mais uma vez pelo espaço.”
Informativo: Prescrição para crime de abuso e exploração sexual de menores tem prazo estendido — Turminha do MPF – A vítima de abuso sexual tem 20 anos de prazo para denunciar a partir do momento em que completa 18 anos. http://www.turminha.mpf.gov.br/direitos-das-criancas/18-de-maio/prescricao-para-crime-de-abuso-e-exploracao-sexual-de-menores-tem-prazo-estendido