Cantada 474

474 – “Já contei aqui o caso em que um cara olhou pra mim na rua e disse “E aí, sua branquela?” e ficou super ofendido quando eu mandei ele ir se fuder. Agora eu vou contar um que aconteceu há pouco tempo e que me deu muita raiva, principalmente de mim, que fiquei tão estarrecida que nem revidei a agressão.  Pois bem, eu moro em uma casa de esquina, com muro baixo e, como disse na outra história, a minha casa fica em uma avenida com certo movimento de carros e pedestres. Eu tinha acabado de lavar o quintal da casa e estava puxando a água com o rodo. E lá estava eu de costas pro meu muro e logicamente pra rua e pros pedestres também, com o tronco inclinado pra frente na posição clássica de quem está usando um rodo, puxando concentradamente a água pra fora do meu quintal, devaneando sobre qualquer coisa da minha vida. Até que meus pensamentos foram interrompidos por um som de uma voz jovem masculina dizendo “– Huuum, mas que rabinho gostoso, hein?”. Eu parei. Admito que fui um pouco lenta pra captar o sentido da frase e perceber que tinha sido comigo. Sabe quando você tá tão mergulhado nos seus pensamentos que quando alguém te chama você meio que demora pra entender que é “com você”? Foi assim comigo. Eu parei, levantei o corpo e me virei na direção do muro. Mesmo que não tenha sido rápida eu tive tempo de ter a visão completa do câncer em forma humana que tinha dito aquilo pra mim, e mais, ainda consegui vislumbrar todo o olhar de voluptuosidade que aquela coisa em forma humanoide dirigia pra mim e que segundos antes estava pregado na minha bunda. E só fiz isso, olhei. Apoiei as duas mãos no cabo do rodo e sustentei o olhar nojento dele com o meu olhar de pessoa furiosamente emputecida. Eu fiquei sem palavras. Eu quis xingar ele, humilhá-lo, mostrar pra ele e pra quem mais estivesse presente o quão babaca e animalesco que ele é, como sempre faço, como sempre fiz e farei, mas não consegui articular palavra alguma. Foi a incredulidade de ter sido ofendida DENTRO DA MINHA PRÓPRIA CASA que me deixou assim.   Mas, em contrapartida, alguma coisa nessa história me faz ter um pouco de esperança. Porque, enquanto o ser não desenvolvido utilizava toda a sua capacidade cerebral pra fazer as sinapses necessárias pra olhar pra minha bunda e proclamar em voz alta como o “meu rabinho era gostoso”, um cara, aparentemente da mesma faixa etária que o ogro e que estava andando um pouco atrás dele na calçada, viu a cena toda: a agressão, a minha falta de reação e meu olhar incrédulo e ao mesmo tempo mortífero pro verme. E o que ele fez? Ainda enquanto o machão estava me encarando de volta, o cara virou pra ele e perguntou “- Tu é imbecil? Falar essas coisas pras pessoas? Tu acha que é quem? Pede desculpa pra moça!” Aparentemente o mascus ficou desapontadíssimo de não ter o seu comportamento de macho imbecil aprovado pelo outro, talvez porque ache que só o fato de uma pessoa ter o mesmo aparelho reprodutor que o dele signifique que também tenha o mesmo cérebro de merda. Ele mandou um “- Ah, vai se fuder!” pro cara e pegou outra rua. O HOMEM que tentou me defender olhou pra mim de volta com uma expressão de quem pedia desculpas pela outra pessoa, como se dissesse “– Olha me desculpa pela maioria dos homens. Eles são babacas, mas os que não são sentem profunda vergonha e lamentam por isso”. Essa atitude do outro cara fez eu me sentir esperançosa mas não menos puta da vida por não ter quebrado o rodo na cabeça daquele idiota, ou melhor, já que ele dá tanta importância pra um “rabo” (sic), ter feito o dele experimentar o cabo do meu rodo.”  Thamara