Cantada 484

484 – “No final do ano passado, enquanto voltava da terapia (porque já tenho minha cota de problemas) pra casa, um DEFICIENTE ANDANDO COM DUAS MULETAS me pediu ajuda para atravessar a rua. Eu não gosto de interromper minha caminhada por nada, mas bateu o sentimento de solidariedade (mesmo porque o assunto daquele dia na terapia foi o quanto eu sou fechada e o quanto devia dar chances para estranhos mostrarem que podiam ser banacas) e eu concordei. O homem me deu uma muleta pra carregar e colocou uma mão no meu ombro, até aí tudo bem. Mas ficou estranho logo que ele pediu para atravessar no meio da rua, fora da faixa. Eu morro de medo de trânsito e era uma avenida bem movimentada, mas como ele vinha andando bem devagar eu entendi que ia demorar muito até chegarmos na faixa de pedestre. Ele percebeu que eu fiquei incomodada com a ideia e disse que era só sinalizar que os carros paravam, que ele tava acostumado a fazer aquilo, então eu fui na fé. Só que no meio da rua, eu já com medo de ser atropelada, querendo ir o mais rápido possível, O FILHO DUMA ÉGUA DESCEU A MÃO E APERTOU MEU PEITO! E aí eu penso se foi sem querer, afinal ele tinha visíveis problemas de locomoção, talvez tivesse nas mãos também. Mas daí ele apertou de novo! Tipo, umas TRÊS VEZES! Pensei muito rápido se deveria revidar ou não. Tinha um ponto de ônibus lotado na minha frente, mas não sabia o quanto tinham visto e se alguém me defenderia se eu acusasse um deficiente de ter me assediado. Fiquei sem reação, tive medo de me repreenderem, me acusar de estar sendo ridícula, que era impossível uma pessoa tão frágil estar abusando de alguém em plenas condições físicas como eu. Olhei pra cara do rapaz e ele estava sorrindo. Achei que era um sorriso meio triunfante de quem sabia do meu dilema moral, mas talvez fosse coisa da minha cabeça. Sei que acabei indo embora sem fazer nada, mas hoje daria de tudo pra voltar no tempo e reagir de alguma forma.”  Sandorah O’Rhane