Cantada 490

490 – “O que eu relatarei aqui fugirá um pouco do tema por não ser uma cantada, mas de certa forma envolve o feminismo. Eu escolhi desabafar para vocês porque eu precisava ser lida e ler o que vocês tem a me dizer. Embora as pessoas teimem em fazer dietas, consumir menos comida e tudo isso para chegar ao corpo magro perfeito, devo alertá-las que não é bem assim. Independente do seu corpo, você será alvo de machismo na sua vida. Eu tenho uma péssima notícia: Todas essas dietas para satisfazer apenas aos outros e não a si mesma só tornará frustrante o resultado, seja lá qual for. Ao menos foi a experiência que eu própria tive durante toda a minha existência. Eu sempre tive o corpo não muito curvilíneo, o que remete aos outros uma ideia de falta de saúde, fragilidade e pena. Mas quem disse que eu quero despertar pena? Quem falou que a minha imunidade é ruim? Pois bem, ao ser relacionada com esses estereótipos bestas por toda a minha vida fui apenas me escondendo atrás da vergonha de usar uma saia ou pelo medo de ser feia por assim dizer. Até que eu descobri que todo mundo é bonito até que se diga o contrário. Beleza é algo baseado em gosto próprio, é construída pela opinião própria e nunca será absoluta. Nós mulheres somos apenas parte de uma vitrine ao qual todos observam e denotam o valor de cada manequim. Somos avaliadas pelo tamanho da bunda, dos peitos, do cabelo e da cintura. Mas nunca pela coragem. Deveríamos mesmo é ser tachadas de baderneiras porque fazemos bagunça na sociedade machista. Adoro quando quebramos o manequim que nos reveste e passamos a ser nós mesmas, pouco nos fodendo para o que as pessoas irão dizer. Mas infelizmente, elas irão dizer. E vão falar muito porque ter uma ideologia boa machuca a sociedade, já acostumada a tanta coisa ruim e adaptada a não ter vítimas, mas sim pessoas treinadas à não sofrer violência. Voltando ao assunto “magreza ofende”, não posso esquecer que durante a minha vida, notei que todas as pessoas (SEM EXCEÇÃO) comentavam sobre mim de duas formas: Para me deixar mais feliz ou para me magoar de verdade. As pessoas que tentavam me “consolar” por eu não ser curvilínea como pede o roteiro, diziam que talvez um dia eu engorde. As que tentavam (ou não percebiam) magoar, diziam que sentiam pavor de me abraçar por terem medo de me quebrar (adoro um abraço e nunca quebrei nenhum osso na vida). Medir o pulso é uma prática constante no meu dia-a-dia. Acho que todas as pessoas já transformaram os próprios dedos em pulseiras apenas para medir o meu IMC de uma forma popular. E é muito divertido quando se aproximam de mim para ver meus ossos expostos, ter uma aula de biologia em meu corpo. Isso fez com que eu odiasse a minha clavícula e cotovelo, por isso tento escondê-los. Vocês não sabem o quanto eu A-M-O ser observada e analisada pelos machistas de plantão, que nada tem a dizer se não falar mal de qualquer um. Ou quando diziam que eu deveria engordar porque eu sou horrível sendo assim. M-mas… E se eu quiser ser assim? E se eu estiver me sentindo bem dessa forma? O corpo é meu, não é? Assim como alguém que está acima do peso não está fazendo uma referência à obesidade mórbida (acho pura gordofobia dizer isso), eu não estou fazendo para a anorexia. Até porque eu me alimento muito bem, caras. Minha saúde é de ferro e eu raramente fico doente. Portanto, eu não quero que sintam pena ou que me ofendam: Eu quero respeito. Quero conversar com alguém (ao menos uma pessoa) sobre as coisas da vida, sem que o meu foco seja as estranhezas do meu corpo. Meu sonho é abraçar alguém sem que a pessoa se sinta desconfortável e comente isso da forma mais esdrúxula possível. Imagine que louco seria? Será que é pedir demais ser apenas… Eu? Algumas pessoas falam até como se eu não estivesse por perto. Eu não acho que eu devo engordar. Eu não preciso me padronizar. O diferente é assustador mesmo, mas ninguém merece ser tratado com desrespeito por conta disso. E eu fico bastante chateada quando vejo que algumas meninas acima do peso tentam diminuir as tachadas de magrelas porque eu sinto o que elas sentem quando alguém olha torto. Eu me mato de vergonha de usar um vestido e não me sentir ~feminina~. Quase peço pra morrer quando alguém diz com sinceridade que sou bonita, mas eu discordo até o fim porque já me convenceram que eu não sou.  Ok? Já sei que não sou nenhum exemplo de beleza e que eu preciso ter peitos e bundão porque eu preciso de beleza como referência nas qualificações do meu currículo profissional. Não precisam ficar me lembrando disso o tempo inteiro. Mas de que adianta se eu serei desrespeitada da mesma forma? Sendo bonita, feia, gorda, magra, esbelta, morena ou ruiva ainda sim eu nasci com uma vagina. E isso já é motivo o suficiente para nos submeterem em todos os momentos.”