Cantada 496

496 – “Se me permitem desabafar: malho em uma academia que é na minha rua. Ando 2 min e tô lá. Hoje saindo da academia (com aquela roupa de ginástica que por mais que você coloque blusão e tal, ‘chama a atenção’) nesse percurso de 2 min até a minha casa, recebi duas ‘cantadas’ e uns 5 olhares intimidadores. E são sempre dos mesmos homens que estão sempre na minha rua. Olhares esses que eu tenho que lidar desde que eu tenho tipo 12 anos de idade. Eu me sinto completamente desrespeitada e diminuída como ser humano por ser obrigada a lidar com isso todos os dias. E não ter uma trégua NUNCA. Não importa se eu tô bonita pros padrões masculinos (maquiada, ‘bem vestida’), se eu tô com cara de quem acabou de acordar ou toda suada como foi o caso hoje. E também ninguém se importa se eu tô querendo essas cantadas ou esses olhares. É triste, desgastante, desanima seu dia, sua vida.”
[Depoimento tirado dos comentários em uma postagem sobre abuso em ônibus no blog da Lola, do dia 2 de abril de 2013] 495 – “Bom, eu comento aqui de vez em quando e já mencionei que nunca sofri abuso. Mentira. Há cerca de 2 semanas eu me lembrei de uma situação pela qual passei quando era adolescente e percebi que já sofri sim abuso sexual. Eu tinha mais ou menos 16 anos. Estudava num colégio que ficava perto de um shopping com muitas salas de cinema. Apesar de ter muitos amigos, gostava de fazer várias coisas sozinha (ainda gosto) e resolvi ver o filme Vanilla Sky no cinema do shopping após a aula e tomar um café, passar numa livraria, coisas assim. Eu estava com a blusa do colégio e carregava uma mochila. Me sentei em uma poltrona no meio do cinema, sem ninguém ao meu lado. As luzes se apagaram e o filme estava começando quando um homem se sentou ao meu lado. Eu não gostei muito quando ele se sentou ao meu lado, mesmo porque muitas poltronas estavam livres no cinema, mas também não achei que tinha nada demais, afinal as pessoas têm o direito de se sentar onde quiserem. Eu estava muito entretida com o filme mas comecei a sentir alguma coisa esbarrando na minha perna. Deduzi que era a perna do homem ao lado, que devia estar se ajeitando e não falei nada. Conforme o filme seguiu em frente aquela sensação se repetia em alguns momentos e eu comecei a achar estranho, comecei a ficar bem incomodada mas até então só achava que o cara era espaçoso. Aí teve um momento em que ele começou a gemer baixinho. Eu entendi tudo nessa hora. Ele não estava com o pênis pra fora, mas estava se esfregando por cima da calça e eu demorei muito tempo pra perceber. Mesmo quando percebi, tive dificuldade para aceitar que aquilo pudesse estar acontecendo. Eu me levantei, sentei numa poltrona mais para o lado e coloquei a minha mochila na poltrona em que estivera sentada até então (a mochila ficou na poltrona entre entre nós dois). Resultado: o cara levantou e começou a descer correndo a escada que separa as fileiras de poltronas para sair do cinema. Por mais que eu soubesse o que estava acontecendo, foi só nesse momento que realmente acreditei em mim mesma (eu tive uma imensa dificuldade para aceitar o fato de que isso estava acontecendo e de que uma pessoa era realmente capaz de agir assim). A minha reação foi meio impulsiva: eu me levantei, peguei minha mochila e desci as escadas correndo atrás do cara. Cheguei do lado de fora do cinema e ele estava indo em direção às escadas rolantes. Eu o segui, mas ele correu pelos corredores e desapareceu. Eu nunca vi o rosto dele, mas pelo tipo físico ele parecia ter uns 40 anos. Eu não cogitei chamar um dos seguranças do shopping ou a polícia, eu não contei pra ninguém, eu não entendi direito o que fazer com aquela experiência e eu me culpei muito por não ter percebido logo desde o início. Era como se eu tivesse “deixado”. Nunca consegui terminar de ver o filme Vanilla Sky até mais ou menos uns 15 dias atrás. E foi aí que, relembrando todo esse episódio, eu consegui dar nome ao que aconteceu.”