Cantada 503

503 – “Moro no centro de São Paulo e perto da minha casa tem uma padaria que funciona 24hs. Por conta disso, ela contrata “seguranças” que ficam na porta e também fazem uma espécie de “ronda” na rua de tempos em tempos pra evitar que os mendigos cheguem perto. Eu frequento muito essa padaria, já que ela fica a 50 metros do meu prédio e todo mundo lá me respeita e me conhece, inclusive a maioria dos seguranças, mesmo que seja só de vista. Mas eles fazem turnos e como a empresa deve ser terceirizada, as vezes aparece um ou outro que eu nunca vi, como foi o caso ontem.   Enfim, ontem meu namorado passou o dia na minha casa e à noite fui acompanhá-lo até o metrô. Nós dois passamos na frente da padaria e eu vi que o segurança que estava lá olhou pra gente, mas nem liguei, porque prestar atenção nas pessoas que passam ali na frente é o trabalho dele. Isso passou batido, continuei conversando com meu namorado, chegamos no metrô e me despedi dele. Vale ressaltar que o metrô fica a 5 minutos da minha casa então isso tudo durou no máximo 10 minutos. Na volta, encontrei com o mesmo segurança, mas dessa vez ele estava fazendo a ronda na rua. Nisso, o cara me solta essa: “ô delicia”. Eu acho que num período tão curto de tempo, ele não tinha esquecido da minha cara, ele sabia que eu tinha um namorado, mas como agora eu estava desacompanhada, então ele podia me chamar de delicia. Por que ele não disse isso quando eu passei com meu namorado do lado? Quer dizer que eu merecia respeito com um homem do meu lado e sem um homem não? Fiquei com muita raiva, respondi um “babaca” e continuei meu caminho pra casa. Se isso tivesse acontecido na porta da padaria, eu não teria pensado duas vezes, teria entrado e reclamado com o gerente, mas como foi na rua achei que não iria adiantar.   Tô tão cansada disso! Eu mereço respeito em qualquer lugar ou hora do dia, sozinha ou acompanhada e em qualquer roupa que eu esteja vestindo. Delicia é o cacete, eu não sou comida pra ser uma delicia e olha que isso ainda é uma das coisas menos piores pra se escutar. Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um cara passou do nada a 10cm do meu rosto e disse “chupo sua buc*ta todinha”. Que merda uma pessoa tem na cabeça pra achar que tem o direito de dizer isso pra alguém? Pra não falar do óbvio machismo inserido nesse gesto, cadê o respeito, pra dizer o mínimo? Quer dizer que agora é normal sair dizendo coisas obscenas pros outros na rua? Ou só é normal pras mulheres? Até quando nós vamos ter que passar por isso?”