Cantada 508

508 – “Compartilho com vocês o texto que publiquei em meu facebook semana passada e muitxs sugeriram que eu enviasse a vocês. Não conhecia a página, infelizmente.     **********************************  Cansei de esperarem que me cale! ====================  Ontem fui à Choppada dos meus amigos da Computação em uma chácara aqui próximo da Unicamp. Enquanto todos se divertiam, observei 4 ou 5 caras olhando para uma rodinha de meninas que dançam com aquele olhar que só nós mulheres sabemos o quão asqueroso e revoltante é. Não bastasse este desrespeito, um deles saca o celular e começa a filmar a bunda de uma das meninas. Elas pareciam carne pra tigres ali. Pra mim, é impossível ver qualquer coisa dessas e ficar quieta. Fui até eles já tremendo de nervosa e perguntei se nunca tinham visto uma bunda na vida deles, porque é o que parecia. Como de esperado, a resposta não foi das mais amigáveis. Tive que ouvir o tradicional: Que você tá falando, sua vadia? Eu só tô aqui dançando! Depois de muito tumulto, olhares ameaçadores e elogios como “biscate arrombada”, consegui conversar como “gente” com um deles, o mais velho do grupo, que aparentava ter entre 30 e 40 anos. Perguntei se ele tinha filha e ele respondeu que sim. Pedi que ele fizesse o exercício de colocar a filha dele no lugar de cada uma daquelas meninas, imaginando vários caras como eles, cercando e tirando foto de sua bunda enquanto dança, imaginando ela nua e à disposição sexual deles. Ele me disse que eu não tenho o poder de ler mentes, pra saber o que eles estavam pensando. Disse também que não queria nem imaginar como reagiria caso fosse a filha dele ali, mas afirmou que não desrespeitou nenhuma delas, porque “não pegou na bunda de nenhuma”. Daí vem um segundo cara do grupo, ainda menos aberto à conversa, querendo entender o que ele “fez de errado”, com o mesmo argumento de não ter tocado na bunda, portanto, não desrespeitou. Eu pedi que ele fizesse o mesmo exercício que o primeiro, imaginando a irmã dele no lugar daquelas meninas. Ele me disse que a irmã dele está na igreja, por isso merece o respeito, menina que vai pra festas tá afim mesmo é de dar e se exibir pros homens. Perguntamos então, se a postura dele muda dentro e fora da igreja. A resposta foi “claro!”. Gente, com argumentos desses, eu já nem sabia o que falar. A raiva crescia cada vez mais dentro de mim.  O homem mais velho disse que iria embora e levaria os outros com ele. Ao final da festa, descobrimos que um deles estava armado e por segurança saímos pelos fundos, pois não saberíamos o que nos esperava ali.  Pior do que essa situação, foi ver um monte de gente que nem imaginava o que tava acontecendo ali, me criticar. Dizer que eu tava “causando” e que deveria ser controlada (sim, controlada) pelo meu namorado, que diferente daqueles, tem o mínimo de bom senso e disse que não tinha poder sobre mim, que eu faço o que quero e que acreditava que eu estava certa e iria me apoiar até o fim. Tive que ouvir que foi exagero também. Mas peraí: não viram o que aconteceu, não tentaram conversar comigo pra entender e ainda acham que meu namorado pode me controlar? Pra mim, cada um de vocês é tão babaca e machista quanto aqueles caras. Eu sou mulher, eu me senti ofendida. Eu sei se é exagero ou não. Eu escolho as atitudes que tomo e sei o risco que corro. Sei o risco que corri porque os caras estavam armados. Mas NÃO É O MEDO QUE VAI ME CALAR, muito menos a intolerância/ ignorância de vocês. Se fosse a namoradinha de vocês a vítima, daí iriam se doer, né. Mas isso não é exigir respeito, isso é agir por ciúmes/posse e isso novamente te torna machista.  Sabe porque eu não chamei os seguranças antes de ir conversar com os caras? Porque me esconder atrás de um homem só reproduziria o pensamento que eu estava tentando quebrar: de que a mulher é volúvel e dependente do homem; depende dele para se defender de outro homem e que assim, ao mesmo tempo que ele tem o poder de defesa, tem o de ataque.  Tô cansada disso tudo há muito tempo. Quero ir pra festas e dançar por diversão, sem julgamentos alheios ou desrespeito tanto quanto quero ser respeitada por lutar por respeito; quero ter a segurança de entrar numa festa e não me deparar com uma pessoa armada; quero ter liberdade de dizer o que penso sem ser agredida; quero ser RESPEITADA e isso não é pedir demais.  Agradeço aqueles que ofereceram apoio e que tentaram entender a situação e me proporcionar um pouco de consolo naquele momento que pra mim foi tão dolorido.”