Cantada 510

510 – “Pego ônibus todos os dias pelas 7hs e pouco na mesma parada de ônibus, que é cercada por uma pequena fábrica de colchões e duas oficinas. Toda mulher sabe que passar na frente de oficinas é pedir pra ouvir algo, mas agradeço que todos os homens que lá trabalham me respeitam e nunca fizeram piadinha. Até me sinto segura por estar cercada de gente, porque no horário que pego o ônibus fico sozinha na parada. Hoje eu estava lá, sozinha novamente, lendo meu livro, quando passou uma camionete com uns cinco homens dentro, gritando “lindinha, gostosinha” e buzinando. Criei um modo automático quando ouço essas palavras: grito “vai tomar no cu”. Mas daí o carro parou e estacionou logo na frente, daí pensei “puts”. Os imbecis desceram do carro e começaram a gritar de novo “ó, não te preocupa que a gente já tá indo aí”, “não precisa ficar com medo (ODEIO QUANDO FALAM ISSO), já vamos ir aí, brabinha”. Estava pronta pra responder e dar uma lição verbal nos caras, que provavelmente entraria num ouvido e sairia pelo outro, mas pensei duas vezes. E pensar essa segunda vez me fez ver que talvez não fosse uma boa ideia. Pego ônibus diariamente no mesmo lugar e no mesmo horário, e, como disse antes, sempre sozinha. Como a gente deve agir numa situação dessas? Eu queria continuar respondendo e batendo boca, queria muito, mas essa MERDA de vulnerabilidade tomou conta de mim e me fez achar que talvez não valesse a pena. Pensei em ligar pra polícia se eles continuassem, mas meu ônibus logo chegou e fui embora. Eu não quero ter que me sentir mal por ser mulher. O que vocês acham? Vale a pena continuar a discussão nesses casos ou às vezes é melhor não prolongar? Pra completar: essa página é tudo de bom! Sinto todas essas pessoas como amigxs próximxs e é muito bom sentir isso! “