Cantada 511

511 –   “Olá, meu depoimento foge um pouco à temática da comunidade mas eu preciso desabafar em algum lugar e se publicar eu agradeço.   Minha avó era separada do meu avô e tinha um namorado de anos, que era como parte da família (inclusive lembro de vários momentos agradáveis com ele – “causos”, zoar com a careca dele, um bolinho que ele sabia fazer e do qual só eu gostava…). Ela tinha uma casa de praia à qual íamos eu, uma prima, a minha avó e o dito-cujo com certa frequência. Lembro de uma ocasião em que, em uma dessas vezes, eu estava assistindo TV sentada ao lado dele e ele começou a passar a mão em mim, e colocar minha mão no pau dele. Eu estava naquele estado “zumbizado” de quem está vendo TV e simplesmente puxei minha mão e afastei a dele. Na época eu tinha 10 ou 11 anos de idade (atualmente tenho 28) e não lembro se na hora me ocorreu contar algo a alguém, se eu tive algum sentimento de culpa ou nojo. O que mais me perturba são duas coisas: primeiro, a possibilidade de eu ter sido abusada outras vezes (inclusive de forma mais grave) e não conseguir lembrar; segundo, nunca consegui contar isso para ninguém da minha família (falei isso para um amigo hoje e resolvi postar aqui pra ver se assim eu crio coragem). Por mais que no fundo eu saiba que não é minha culpa, que eu seja a favor de ter coragem e contar, e apoiar toda a causa feminista o bloqueio permanece, e é duro de romper. MUITO duro. Sempre que cogito contar para meus pais ou me vêm pensamentos como “Ah, se eu contar para a minha mãe ela vai vir com aquele discurso que estou me fazendo de vítima que ela adota pra tudo sempre que eu tento me abrir com ela” ou “Ah, hoje não, eles estão de bom humor, têm um churrasco para ir… hoje não, ela não está em um dia legal… hoje não, blablablá desculpaesfarrapada…”. Como eu já disse, vou ver se compartilhar essa história aqui me faz criar coragem. Ah, minha avó morreu há 10 anos. Ele mora em outro estado e não tenho muitas notícias dele, só sei que alguns anos atrás ele teve um derrame e ficou cego, e não consigo deixar de pensar que foi bem merecido.”