Cantada 514

514 –  “Hoje 2:50 da manhã estava caminhando com meu namorado para o ponto de ônibus perto do Mc Donald’s da 209 norte quando um cara passou de carro gritou “piranha”.  Assim: de graça. Para uma desconhecida. Ganhei o ódio de um homem pelo quê? Ser mulher. Só.  Cheguei em casa e chorei muito. Muito mesmo. É simplesmente horrível ter agressões diárias, na forma disfarçada de “cantadas” – puro assédio verbal – ou hoje, em sua forma mais violenta.   Foi a primeira vez que fui xingada só por andar na rua, mas não deve ser a última. Mas já fui xingada de otária ou algo assim por ignorar uma cantada na rua. Desconhecido já simulou sexo oral pra mim no shopping. Deixei de fazer cursinho para concurso a noite após ter sido seguida e abordada por um cara na rua.   Eu odeio ser mulher. Eu odeio ser mulher.  Meu feminismo não é só teoria acadêmica, empatia e solidariedade. Meu feminismo não é intelectual. Meu feminismo é passional e doído, porque é uma árdua luta por sobrevivência num mundo que joga na cara sempre que possível que sou uma cidadã de segunda classe e nem todo meu suposto conhecimento pode me proteger do inferno que é ser mulher.”