Cantada 519

519 – “Hoje eu queria compartilhar com vocês uma coisa que aconteceu comigo, não foi um caso de assédio, mas ainda assim achei invasivo e desrespeitoso e é mais uma demonstração de como o machismo está presente em todos os momentos da nossa vida. Eu estava na na cantina da faculdade com umas amigas, rindo e jogando conversa fora. A cantina não estava muito cheia naquele horário, só havia algumas pessoas por perto. Eu estava contando para sobre um chá de lingerie que eu tinha ido, dando detalhes de como tinha sido divertido e todas estavam rindo e brincando umas com as outras, falando coisas do tipo “Ah, no seu chá de lingerie vou te dar um fio dental com estampa de zebrinha”, “no seu chá de lingerie vocês vai desfilar de mulher gato”, “quero só ver a sua lua de mel, hein!”, etc. Entendem? Brincadeiras e palhaçadas entre amigas, estávamos rindo e fazendo comentários engraçados umas com as outras, nada mais… Estava tudo indo bem quando me dei conta de que havia um grupo de garotos umas mesas a frente olhando pra nós. E aí deu aquele “clique”: Eles não estavam apenas olhando, estavam ouvindo toda a nossa conversa! E como se não bastasse, olhando daquele jeito bem asqueroso e nojento que vocês conhecem bem. Eu fiquei com tanta raiva que interrompi a nossa conversa e olhei fixadamente para eles e disse “Ué, parece que alguém perdeu alguma coisa aqui!”. Eles demoraram a entender que eram com eles, então uma amiga perguntou o que era. E eu disse em voz alta “Aqueles meninos ali estão ouvindo a nossa conversa!” Na mesma hora eles ficaram meio… surpresos. Pararam de olhar ou pelo menos olhavam menos. Mas eu estava tão irritada que continuei falando em voz alta “Mas que merda hein? A gente não pode falar nada, não pode falar a palavra ‘lingerie’, ‘fio dental’ que já olham pra gente com malícia! Nem privacidade a gente tem pra conversar!” Minhas amigas sabem que eu sou meio esquentada e desbocada e mesmo rindo, ficaram meio sem graças, pedindo pra eu falar baixo. E eu disse “Não vou falar baixo não! Não estavam ouvindo a nossa conversa? Então ouve agora o que eu tenho pra dizer ué! Já que a gente não tem privacidade nem pra conversar, fiquem a vontade pra me ouvir agora!” Bom, pra resumir, fiquei um tempão falando um monte de coisa em voz alta e os babacas lá, murchinhos, fingindo que não era com eles. Até que por fim eu disse: “Então meninas vamos mudar de assunto, vamos falar de coisas mais recatadas e comportas, né? Só assim pra ter privacidade mesmo”. E de fato mudamos de assunto, mas com todo o cuidado de falar baixinho. Mas ainda assim reparei que eles ficavam olhando pra gente, hora rindo, hora meio desconfiados. Até que se levantaram pra ir embora e passaram pela gente. Eu ergui a cabeça e fiquei encarando eles, que nem se atreveram a olhar pra nossa mesa. Bom, acho que no final das contas as meninas que estavam comigo esqueceram aquele assunto. Acho que elas não entenderam (e pode ser que muitas não entendam) por que fiquei tão irritada. Gente, o fato é o seguinte: Somos obrigadas a ficar ouvindo sobre caras falando sobre bundas, peitos, gostosas, sobre quantas mulheres eles já “pegaram”, sobre o que fizeram com elas na cama, sobre o que elas fizeram com eles, etc. Resumindo: A um cara é dada total liberdade pra falar sobre intimidades sem serem constrangidos. Todos riem, todos acham natural. Mas e nós mulheres? Por que é tão surreal moças falando sobre fio dental, lingerie? Por que nós não podemos rir e comentar sobre nossas intimidades? A sensação é que aqueles garotos, ao ouvirem as nossas conversas, estavam ouvindo um anúncio de pornografia. Mulheres deveriam falar sobre o quê, afinal? Sobre a ida ao supermercado? Sobre o almoço que fizeram pro marido? Sobre quanto os filhos estão crescendo? Poxa vida, né gente… Por isso fiquei com tanta raiva. É por isso que mulheres se sentem reprimidas (e, por isso, acabam reprimindo umas as outras), pois mal podem falar sobre a sua sexualidade de forma aberta que vai ter alguém para fazer isso parecer sujo e vulgar. E vai ter caras, tipo esses do meu relato, pra olhar uma mulher como urubus olham uma carne fresquinha. As pessoas acham exagero quando uma mulher se revolta com situações como essas. Mas é tão sufocante viver em uma sociedade em que querem controlar tudo o que se envolve ao gênero feminino: As roupas, o comportamento, a forma de pensar e até a sexualidade. Não nos deixam viver a vida de forma livre, é o tempo todo, desde crianças, ouvindo regras e sendo julgadas. E isso me sufoca. E em momentos assim, eu perco a cabeça mesmo. Aí fico com essa pauta: Mulheres não podem ter liberdade para falar sobre assuntos que bem entenderem? Não podem falar sobre besteiras e intimidades? Ah, gente… Qual é?!”
Boa dica – “Não sei se vocês já viram, mas tá aí uma dica de um vídeo que é auto-explicativo. Está em espanhol, mas dá pra entender a situação: “E se fosse sua irmã, gostaria?”
Machista, eu? Bunda de fora, salto alto de “fuck me” “Incrível como o argumento é tão igual ao do agressor de todo dia. Mulher pode ser mulher, desde que. Embora. Apesar de. Contudo. Pode ser, com restrições. Com contingências. Os sinhozinhos de engenho entenderiam tão bem a explicação de Gerald. Claro. Ela estava usando saia curta, sapatos de “fuck me”. E tantas vezes é isso: se estivesse de saia comprida. Se não tivesse me olhado desse jeito provocante: olhar de “fuck me”, por suposto. Se seus quadris não rebolassem tanto. Se não tivesse esse decote.”
Ser Mulher : Adriana Torres “Uma vez, acho que com 16 anos já, voltando da escola, de tênis, mochila e camisa de malha (ou seja, não estava vestida para matar né?) às 22 horas, fui abordada na rua por um carro que perguntou sem titubear “custa quanto?”. Eu abaixei a cabeça e continuei andando e ele deu marcha ré (estava na contramão) e insistiu: “Eu pago 150”. Minha irmã, que estava alguns passos à minha frente, retornou e deu um chute na porta do carro e só assim ele se foi.” http://www.adrianatorres.com.br/viajando-na-maionese/ser-mulher.html