Cantada 521

521 – “Olá meninas, me apaixonei pela página, li vários relatos e eles me fizeram refletir bastante. O que eu tenho para contar não é exatamente um caso, mas várias experiências e reflexões minhas. Bom, andar sem uma presença masculina na rua pode significar cantada certa para nós mulheres, infelizmente é assim. Na verdade, se fossem só cantadas, estaria tudo bem, até porque muitas cantadas são bobinhas e até engraçadas, como “seu pai é um padeiro? Porque você é um sonho…”. Para a nossa desgraça, muitos caras querem apelar pra violência sexual – já que a violência não se dá somente pelo meio físico, mas também por constranger, oprimir moralmente -, chamando de vadia, como se fosse um elogio, falando o que a mente suja deles imaginou, passando a mão se nenhuma permissão, esbarrando com a desculpa do balanço do ônibus… Minha gente, mas o que é isso? Muitos homens aprendem desde criança que a mulher quer, só não quer admitir. Um exemplo disso foi uma situação que aconteceu comigo… Quando eu tinha 2 anos, um menininho da mesma idade veio me abraçar. Eu não gostava que ficassem me abraçando, me apertando e empurrei ele longe. Minha mãe estava perto e o tio dele também. Vendo a cena, o tio disse: “Ah Fulano, não liga não. Elas empurram, mas no fundo todas elas querem…”. Minha mãe ouviu e ficou extremamente enojada com o que o cara disse. Quem disse que eu queria? Quem disse que a mulher que ele abraçar vai querer, mesmo com ela empurrando? Isso é machismo, das antigas. É um pensamento idiota de que não importa a opinião da mulher, se ela quer ou não, azar, porque eu quero. Eu estava pensando, quando eu era pequena, minha mãe me falava que eu não podia usar tal saia porque ela era curta demais, porque era feio aparecer as minhas perninhas. Aí eu cresci um pouco, me tornei adolescente e o discurso mudou, ela não me deixava usar tal vestido porque era super curto e as pessoas podiam pensar mal de mim, que eu não precisava ser confundida com uma ‘vagabunda qualquer’ (palavras dela). Não acho que minha mãe me ensinou mal, ao contrário, agradeço demais pela instrução dela, se hoje eu sou quem sou e tenho orgulho disso, foi porque eu ouvi o que ela me ensinou. Mas… reparou numa coisa? Eu fui criada para evitar que os homens pensem mal de mim. Mas muitos homens foram criados para pensar mal de mim, com aquela conversa, desde pequenininhos, de “olha filhão, tua namorada”… Nós somos criadas com o machismo feminino, nós mesmas somos as primeiras a falar “ah, mas ela pediu pra ser abusada, olha a roupa dela!”. Sinceramente, não uso certas roupas porque não gosto de mostrar demais o meu corpo, não é por vergonha, é o meu jeito mesmo. Porém, sou adepta de que uma roupa não é um convite e nem uma permissão. Pensa bem, quantos casos de mulheres que estavam “bem vestidas”, sóbrias e sem dar mole pra nenhum cara sofreram abusos sexuais? Cada um tem um gosto diferente, considera certo tipo de roupa atraente, um cara pode gostar de mini saia, mas outro pode se sentir atraído por tailleur. Como nós vamos adivinhar? Será que existe um aviso de “a utilização dessa peça pode implicar em assédios”? Não, existe o autocontrole, um homem não pode se deixar dominar pelos próprios desejos, enquanto a mulher não disser sim CLARAMENTE. Qualquer cara que se aproveite da fragilidade de uma mulher, seja para assediá-la, seja para violentá-la, é um covarde e merece punição. Reparem nas frases: “não se vista assim para não pensarem mal de você” e “você não precisa mostrar o seu corpo para que os outros te achem bonita. Você é linda do jeito que é.”, as duas possuem diferenças tênues no objetivo, mas os resultados abrangem uma vida inteira e uma linha de pensamento difícil de ser alterada. Ainda bem que a minha mãe me ensinou das duas maneiras. E vendo como alguns homens tratam a mulherada, acho extremamente digno, válido e honroso quando um cara se declara sem te pressionar, quando ele entende um não, quando ele demonstra carinho e não só interesse sexual, quando um cara manda uma indireta fofa, quando ele fica a fim de você, desvia o olhar, fica envergonhado. Esse tipo de comportamento não é nem um pouco desrespeitoso, nem utópico demais, nem falta de testosterona, muito pelo contrário. Acho que é isso que é ser homem de verdade. Por isso, suuuuuuper apoio iniciativas como essa, acho que nós mulheres devemos saber que ser agredida não é comum nem normal. Aliás, nem por um desconhecido, nem por um “amigo”, nem pai, nem irmão, nem parente, nem marido, nem namorado, nem escritor famoso, nem presidente, nem ninguém! Para aquelas que acham que é impossível encontrar um cara respeitador, eu digo que não é. Tente conhecer pessoas novas, tratar todos os caras na zona da amizade, se fazer de desentendida, não dar muito mole… Se eu consegui achar o meu gato, garanto que vocês também conseguem.” Isabele
Preciso de pessoas dispostas a me ajudar no site. Como eu já disse um tempo atrás, Cantada de Rua vai se tornar um site. Como é algo um pouco mais complicado a gerenciar que uma página de Facebook, vou precisar de ajuda. Quero pedir que quem tem disposição e tempo para isso, entre em contato direto comigo. Não é urgente, esse é um projeto que quero tocar de forma mais lenta e segura.