Cantada 534

534 – “Em janeiro desse ano eu estava num ônibus junto com minha mãe aqui em São Paulo. Ela ia descer antes de mim e assim que chegou perto da porta voltou correndo, passou direto por mim, foi até o cobrador e começou a gritar pra que ele fizesse alguma coisa, pois na parte de trás do ônibus um homem se masturbava sentado ao lado de uma senhora. No ônibus havia umas seis mulheres e dois homens, o bêbado que se masturbava e outro, que sentado num daqueles bancos altos na ultima fileira via toda a cena. era um homem jovem, forte, alto.  Depois que o cobrador expulsou o pobre coitado que não conseguia controlar seus impulsos, pobrezinho, o homem sentado nos disse: “Ele já está fazendo isso faz tempo… Antes de chegar na avenida paulista ele até ficou se encostando numa moça de calça legging cinza antes dela descer. Se fosse alguém da minha família ele ia ver…” A fala desse homem que assistia toda a cena há um bom tempo e não fez nada, foi pra mim uma síntese de todo um pensamento carregado de machismo, preconceito, um verdadeiro representante dessa sociedade patriarcal, que vê nas mulheres objetos feitos para serem possuídos. Pra mim esse homem é tão OTÁRIO, tão NOJENTO quanto o que se masturbava. Ainda que sejam “só” palavras, também são violência.  Tudo o que narrei aconteceu muito rápido, acho que durou uns dois minutos no máximo.  Mas eu jamais vou esquecer o olhar da senhora encurralada no banco do lado da janela. Talvez se minha mãe não tivesse visto e tomado uma atitude, ela não tivesse coragem para falar algo, pra sair dali… Ela desceu do ônibus no ponto seguinte. Nem sei se era o ponto dela. Nunca vou esquecer o olhar confuso, furioso, angustiado da minha mãe. Ela, que não suporta violência, não sabia como lidar com a raiva que estava sentindo naquele momento. Não esqueço o olhar das minhas MUITAS amigas que já relataram casos de assédio no transporte público. Não esqueço as minhas sensações de impotência, de nojo, de raiva e mesmo de culpa em tantas ocasiões em que isso já aconteceu comigo.   Não esqueço, não posso, não quero esquecer. Quero que acabem.”