Cantada 535

535 – “Eu tinha 8 anos de idade e morava em apartamento. Na época não tínhamos telefone e usávamos o orelhão do prédio como muitos faziam e até se conheciam por atender telefonemas para outros moradores. Um dia bateram na nossa porta e disseram que havia um telefonema para minha mãe. Ela não estava e eu corri para atender. Chegando lá um rapaz do outro lado da linha disse que queria falar com ela e eu expliquei que não se encontrava, daí ele disse que não precisava dela que estava fazendo um questionário sobre meninas que gostariam de ser modelo e eu poderia responder. Como minha mãe na época queria que eu e minha irmã nos tornássemos modelos eu achei que era verdade e disse que poderia responder o questionário. Ele fez várias perguntas sobre a cor do meu cabelo, minha altura, minha idade, o tipo de roupa que eu gostava de vestir… E no final deu uma risada ou sei lá o que e disse: “Eu gozei, eu te amo”. Eu desliguei na hora. Olhei para todos os lados com medo, comecei a tremer dos pés a cabeça e sentei nas escadas do prédio, comecei a chorar. Pensei milhões de coisas ruins, que a pessoa sabia quem eu era, que iria atrás de mim, que minha mãe não poderia ficar sabendo dessa ligação pois iria brigar comigo por ter atendido… Muitas coisas. Eu tinha apenas 8 anos e isso ficou por muito tempo na minha cabeça, não sabia exatamente o que era gozar, mas sabia o que significava sexo e essa palavra estava sempre relacionada a isso. Por muito tempo havia perdido a confiança nos homens e meninos, mas não contava isso pra ninguém. Aos 9 anos uma prima já adulta ao pegar eu minha irmã num cursinho nos deixava brincando em algum lugar sozinhas enquanto ia namorar. Num dia em um parquinho eu e minha irmã brincávamos e um garoto com uns 15 anos ou mais não sei, se aproximou e começou a fingir que estava brincando de pega pega conosco, então começou nos dar dedadas enquanto pulávamos ou subíamos as escadinhas, infelizmente estávamos de saia. Com medo uma de nós decidimos começar outra brincadeira e resolvemos nos esconder, logo paramos de brincar e então ele foi embora, mesmo assim olhamos ao redor e a nossa prima adulta continuava namorando e nem lembrava que estávamos ali, tivemos que esperá-la sozinhas, nos sentindo culpadas por ter brincado com ele e com medo que voltasse. Pode ser um abuso, uma invasão em um nível que muita gente pode considerar pequeno, mas isso já afeta o psicológico de uma criança e a gente leva isso pra vida adulta sem querer. Sempre que alguém me canta na rua me sinto mal, despida à força, não aprendi a aceitar elogios de cara, mal fiz amizades com garotos na escola até o 3º ano, as amizades eram extramente artificiais. Aos 14 anos um amigo perguntou se eu já havia namorado e quantos anos mesmo eu tinha, eu falei e então ele perguntou se não estava na hora, eu fiquei com raiva, disse que não estava e nunca mais falei com ele, pois me senti invadida. Ele estava apaixonado por mim e eu agi como se ele fosse um criminoso. Comecei a namorar aos 16 anos com outra pessoa mas não queria sexo nunca e até chorava na hora se o momento parecia pedir isso, me sentia errada, meu 1º namorado disse que se tinha uma namorada que não transava, não tinha namorada e sim uma amiga, então deveríamos acabar. Mais tarde quando comecei a trabalhar, não queria me juntar aos homens, escolhia um que me sentia bem e era só com ele que eu falava. Aos 19 anos meu 2º namorado era legal comigo até eu descobrir que ele ficava com outras, vivia dando em cima de todas, que dava o telefone dele quando alguma menina o achava bonito e estava seduzindo uma garota de 12 anos de idade por mensagens, ele tinha 21. Hoje minhas amizades com os homens continuam superficiais mas tenho um marido no qual confio muito desde que éramos amigos, já superei muito, por isso quando vejo relatos piores fico bastante emocionada, pois imagino bem como pode ter sido. Se a maioria dos homens não tratassem as mulheres como carne desde crianças, não teríamos esses pequenos traumas e grandes traumas mentais ou físicos.”