Cantada 540

540 – “Há tempos eu acompanho a página e com isso fui criando coragem para enviar meu depoimento.   Hoje tenho 17 anos, mas isso ocorreu foi quando eu tinha 7/9 anos.  Quando eu tinha 7 anos costumava ir comprar o café da manhã com meu pai na feira que havia aqui em minha cidade, era de costume ele estacionar o carro bem perto de uma lanchonete e deixava lá tomando meu café enquanto ia fazer as compras. Num determinado dia que eu achava ser como qualquer outro, fui deixada pelo pai na lanchonete e enquanto eu estava lá se aproximou um senhor que aparentava ter uns 50 anos, lembro bem de suas feições. Eu estava sozinha, a dona do café tinha saído para comprar materiais no supermercado que ficava ao lado, logo que ele chegou perguntou se poderia pagar alguma coisa pra mim, e eu timidamente respondi que não. Então se sucederam outras perguntas e ele começou a acariciar a minha coxa e fui compreendo que aquilo não era coisa de “gente boa”, então corri para o carro, me tranquei e tremia sem parar. Quando meu pai voltou o homem já tinha ido embora e perguntou por que eu não o esperei no lanche, mas estava tão envergonhada e sem saber como falar que disse apenas: – É que eu queria escutar música. Isso ficou por muito tempo na minha memória. Ou melhor, até hoje.  O segundo caso foi pra mim o pior e que deixou marcas mais dolorosas. Foi quando eu tinha 9 anos, nessa idade costumava ir a casa dos meus primos brincar de videogame, íamos para o quarto e ficávamos deitados e passávamos a tarde toda jogando. E algumas vezes meu tio deitava ao meu lado, somente de cueca e ficava pressionando seu pênis duro contra as minhas pernas. Ou quando meus primos saiam e eu ficava sozinha, ele deitava sobre minhas costas e colocava suas mãos debaixo de minha blusa e acariciava meus seios, aquilo me feria por dentro, eu ia pra casa e chorava muito e sentia nojo do meu corpo. Hoje eu ainda moro no mesmo lugar, ele ainda é meu vizinho, mas por “sorte”, ele e minha tia já estão em processo de divórcio, motivo? Ele está sendo processado por ter tirado a virgindade de uma menina de 14 anos. Hoje, em hipótese alguma entro na casa, tenho medo de ficar sozinha com ele. Nunca tive coragem de falar isso para ninguém, e nem sei se terei. E esses fantasmas sempre me acompanharam, quando tive meu primeiro namorado e sentia que estávamos ficando íntimos, aquilo ia me dando pânico e ataques de choro. Ele terminou comigo porque se sentia culpado, disse que tinha algo em mim que não o fazia bem, era como se estivesse me violando. Hoje sinto que isso ainda me afeta, sou meio travada para as coisas, tenho medo de todo homem que se aproxima de mim, até um elogio me assusta e fico em alerta, por isso, criei o hábito de andar sempre com uma pistola de choque e gás de pimenta.   Já que a sociedade não me dá segurança, às vezes temos que criar nossos próprios muros para sobreviver num mundo onde não se pode confiar em quase ninguém.”