Cantada 543

543 – “Eu cresci rodeada por meninas. Tive pouco contato com homens, só mesmo na escola e só quando fiquei mais velha, lá para uns 14/15 anos. Quando minha irmã, 5 anos mais velha que eu, começou a sair na rua sozinha, lembro de minha mãe ter comentado com minhas tias, que “os meninos na rua até já mexem com ela”, como se fosse algo do que se orgulhar. Quando eu saia com minha prima, também mais velha, eu ficava com inveja porque os meninos mexiam com ela e comigo, que era bem mais nova, não.   Acho que devido a essas situações, a nunca ter convivido com homens e a ter crescido achando que receber cantada era legal, eu demorei para perceber o quão repugnante isso tudo é. Até meus 17 anos eu apenas passava e ignorava, mergulhada na ideia “boys will be boys”, com pouca ou nenhuma revolta, como se fosse algo imutável e com o que eu deveria lidar simplesmente. Mas então, nessa mesma idade, eu conheci uma amiga que, sempre que passava por algum rapaz que falava m*rda pra ela, xingava até não poder mais. Eu achava aquilo horrível, achava que ela era barraqueira, que não tinha necessidade de fazer isso. Conversando com meu namorado, mais tarde, ele virou pra mim e disse que ela estava certa, que ela precisava tentar se defender de algum modo e não deixar que a coisa se naturalizasse.  Coincidentemente, foi nessa época que começaram a estacionar em frente meu prédio, todas as manhãs, umas peruas lotadas de rapazes novinhos, que trabalhavam sei lá eu em quê. Foi quando a coisa começou a me incomodar. Eram 5, 6 peruas e eu TINHA que passar por ali, não tinha outro caminho. Eles até me conheciam e começavam a tentar adivinhar meu nome. Muito irritada, um dia, eu gritei para eles irem se ferrar. E me senti bem, porque eles pararam de importunar a mim e passaram a importunar a turminha para qual eu havia gritado. Começaram a se zoar entre si. Estava tudo ótimo e eu estava quase terminando de passar pelo corredor de peruas, quando percebo que meus pais, tendo saído um pouquinho depois de mim, haviam visto tudo. Resultado: começaram a dar bronca em mim NA FRENTE dos garotos, me humilhando totalmente, dizendo que eu não era “menina de rua para me comportar como moleque, batendo boca e xingando”. Os rapazes começaram a rir da minha cara, óbvio. E eu fiquei com raiva, muito raiva…só não sei se mais do garotos ou dos meus pais.”