Cantada 572

572 – “Não é uma cantada, mas eu não tenho outro lugar pra mandar isso e tô muito chateada.  Eu mandei há um tempo um relato sobre quando o pai da minha amiga me assediou quando eu tinha 15 anos. Não tinha contado pra minha mãe porque a gente não se dá tão bem e é difícil conversar com ela, mas hoje ela estava me contando sobre um caso de aliciamento de menores e o assunto surgiu e eu contei.  Pense em você contando sobre um caso de assédio em que o pai da sua amiga te abraça de cueca num apartamento vazio e você não tem a mínima ideia do que fazer, tentando levar em conta todas as coisas que o mundo, sexista como é, te passa como leis, como é difícil reagir em certos casos por causa de como a gente é ensinada a não contrariar, a não ser agressiva, principalmente com conhecidos, ou mesmo independente disso, porque é o tipo de situação em que na maioria das vezes a gente fica sem reação.  Agora pense em uma pessoa tentando tornar a si mesma o centro da conversa: “mas eu te ensinei isso”, “mas eu não sou a sociedade”, “mas eu conversei com você”, “mas eu te falei do caso da fulana”, “mas eu, mas eu, mas eu”. E depois te dizer “eu, eu, eu” ainda diz: “mas se você sabia que tinha algo de errado, como não fez nada?”, “mas por que você foi pra lá?”, “mas eu teria acreditado em você”, “mas você tinha que me contar”, “como você pôde achar isso de mim?”.  A minha tia já foi abusada e desacreditada uma vez. Não interessa que sejam seus pais, às vezes você simplesmente tem um medo irracional de ser ridicularizada ou até de levar uma bronca. Na verdade, não tão irracional assim, já que a gente vê casos em que meninas que foram abusadas chegam a apanhar. Minha mãe não entendeu isso e se preocupou mais em ser tida como “acima da média” no que diz respeito a padrões sexistas. Ela não está acima da média. Ela é uma pessoa normal que absorve padrões como qualquer outra. Sei que ela não duvidaria de mim, mas ela não pode me cobrar isso ou aquilo agora, cinco anos depois, como se eu tivesse como impedir no estado em que fiquei, como se fosse ok acusar o pai de duas filhas de grave assédio e todo mundo fosse me apoiar, como se eu tivesse obrigação de fazer alguma coisa, como se, se algo pior tivesse me acontecido, eu tivesse responsabilidade, porque não tomei nenhuma atitude. Eu não teria. Ninguém tem responsabilidade pelo abuso sofrido.  O mundo não ensina a gente a se impor e saber que nossas opiniões devem ser igualmente consideradas. Não nos ensina a agressividade necessária pra se defender, o mundo ensina que agressividade é inerente aos homens, e que não devemos nos portar como homens. O mundo não ensina que a vontade de homens, escrotos ou não, não é lei. Do contrário… A gente vai aprendendo a se calar e achar que homens sempre tomam as decisões… Se nossos pais não nos ensinarem o contrário insistentemente, o resto do mundo vai rapidamente tratar de te adequar a ele.  Hoje eu não me calo, mas nem todo mundo tem estrutura ou força pra isso. Eu não tinha. E ninguém pode me cobrar absolutamente nada, porque eu não aprendi a me manter calada sozinha — isso a gente aprende de fora pra dentro.  A culpa não foi minha, nem nunca será, e não admito que me cobrem atitudes que não me ensinaram a ter, mesmo sem ter a intenção de me deixar à merce da vontade alheia.  Não admito mesmo. Não admitam; nunca. Mesmo que depois você ache que podia ter feito alguma coisa pra impedir qualquer tipo de abuso contra você, não se culpe por não ter encontrado meios de fazê-lo, porque às vezes simplesmente não dá, às vezes a gente não tem ideia de como fazer isso. Isso não dá a ninguém o direito de dizer que você deu qualquer tipo de anuência ou contribuição. Não mesmo.  A responsabilidade, a culpa, é SEMPRE do abusador. Avisem pras pessoas, peçam que elas parem de nos pedir que tomemos cuidado sem que peçam primeiro o respeito dos homens (que deveria ser ensinado, assim não teríamos que pedir nada). Digam que não cabe a nós evitar nada, cabe a eles saber respeitar o espaço alheio. Digam que pedir pra evitarmos implica em dizer que nos responsabilizamos pelos próprios abusos; digam que a vítima nunca terá responsabilidade, nunca, nem um pouquinho, nem 0,000001%. E não aceitem esse tipo de declaração ou insinuação DE NINGUÉM.  Desejo força pra todo mundo, força pra que possam impedir, espero mesmo que consigam sempre impedir, mas antes desejo que, caso não consigam impedir algo de acontecer, seja uma cantada, uma passada de mão, um assédio, um estupro, que tenham consciência de que NÃO É SUA CULPA. NÃO É, NUNCA FOI, NUNCA SERÁ.  Abraços.”