Cantada 579

579 – “Quando eu tinha 5 ou 6 anos, na minha turma da escola, havia uma proporção bem desigual de meninos para meninas – era algo como 3 garotos para 10 meninas. Dentre esses garotos, havia um considerado mais bonitinho, queridinho das professoras. Várias meninas, de fato, deixavam claro que gostavam dele – enquanto eu não chegaria a curtir alguém até meus 12 anos de idade. Enfim, sei que um dia a professora perguntou para ele de qual menina da sala ele gostava. Para a minha surpresa, era eu. Aí começou o inferninho. É óbvio que nós dois fomos alvo de “shipping” por todos os lados, e enquanto ele parecia satisfeito com isso, eu me sentia envergonhada e insegura. Embora insistente DEMAIS, o garoto nunca chegou a ser grosseiro comigo de alguma forma – pausa pra destacar que o problema parecia estar mais nas pessoas ao meu redor do que nele. As “tias” da escola incentivavam, as menininhas tentavam me empurrar pra cima dele, a própria mãe do garoto era favorável – ela chegou a comprar um colar para ele me dar de presente! Eu só sei que fiquei extremamente sem graça quando ele me presenteou, meu pai ficou bravo comigo quando eu não quis contar quem tinha me dado aquilo. Num aniversário meu, tive um ataque na hora do parabéns por medo de que cantassem com-quem-será. Meu pai tinha uma foto minha de braço dado com esse garoto, que foi tirada numa festa junina da escolinha. Até uns 11 anos de idade, eu ainda chorava instantaneamente toda vez que via a foto. Toda vez. E às vezes ele me mostrava a foto de propósito, parecendo apenas curioso sobre o motivo ‘deu ter aquela crise sempre. Ninguém sequer parou pra pensar que aquilo pudesse me afetar tanto. Até eu mesma me esqueci um pouco disso, parece estar tudo meio enevoado na minha cabeça. Ainda assim, quando uma garotinha mais atrevida tentou roubar um beijo desse menino, foi um escândalo. Apareceram 495849865 tias vindas de todos os cantos da creche para passar sermão nela.  Avancemos alguns anos – agora estou na quarta série, estudo de manhã e vou/volto da escola de van escolar. Como o sinal toca 11:30 e a van demora quase uma hora pra vir me buscar, eu tenho que ficar na frente da escola todo santo dia, esperando. Conforme os minutos se passam, o local vai esvaziando e ficam no máximo meia dúzia de alunos ali. Entre eles, um garoto gordinho e que começa a implicar comigo por nada. Eu não entendo porque ele invocou comigo, até que um dia ele passa a mão nos meus seios. Uma menina ri. Eu fico com vontade de chorar e com raiva ao mesmo tempo, quero bater nele, mas ele é escrotamente enorme e eu sempre fui magra e fraquinha. Quando eu tento avançar, ele me derruba e eu bato a cabeça com tudo no chão. Só depois disso, a menina que riu antes interfere – e só porque eu estava chorando. Ela chama um inspetor e o cara se limita a mandar o moleque ir sentar em um canto longe de mim. A menina me perguntou se eu ia contar pra minha mãe, mas eu me sentia envergonhada demais pra isso. Minha mãe provavelmente armaria o maior barraco do mundo e eu só queria esquecer daquilo.  Houve ainda uma vez quando eu, com uns 13 anos, estava sozinha em casa. Devia ser meia noite e pouquinho e eu estava na sala – cuja janela dá de cara pra rua – usando o computador. Um carro passou na frente de casa várias vezes, jogando as luzes do farol diretamente na janela, mas eu não liguei muito pois estava entretida num chat com meus amigos. Até que o cara, vendo que eu não reagia, resolveu descer e começar a atirar pedrinhas na janela/tentar me chamar. Ignorei tanto quanto deu; tinha medo de apagar as luzes e ir pro quarto, pois isso me deixaria menos alerta quanto ao que ele poderia fazer. Minha mãe não atendia o celular, e se eu ligasse pra polícia, sabia que colocaria ela em uma situação apertada por me deixar sozinha. As duas partes da minha janela ficavam presas por uma corrente meio apertada, de forma que mesmo que você forçasse, abriria apenas alguns centímetros, o suficiente pra passar ar. O cara abriu-a e botou o rosto ali, pedindo pra eu olhar ali fora. Ele insistiu tanto que eu me aproximei da janela; ele se afastou e eu vi que ele estava com o pinto pra fora das calças. Ele o manipulou algumas vezes na minha frente, então riu, entrou no carro e (pelo visto havia mais alguém ali) fugiu. Atônita, eu contei pro meu namorado (com quem teclava na hora) quase imediatamente. Ele riu e começou a dizer que eu devia ter tentado trollar o cara de x maneiras diferentes; quando eu o repreendi, ele disse que eu não devia me preocupar, “porque um cara desses está aí só pra zoar, não estupra ninguém”. Não estupra ninguém. Só é maníaco o bastante pra observar o movimento de uma casa (ele com certeza sabia que eu estava sozinha) e insistir por quase uma hora, na madrugada, pra fazer uma brincadeirinha com teor sexual com alguém que ele nem conhece. Não devia me preocupar. Not at all.”