Cantada 580

580 – “Semana passada peguei o trem – transporte que quase nunca tomo, mas que todxs sabemos que em SP é bem tenso em relação a assédio – e o vagão estava bem lotado. Fiquei em pé, no meio de um monte de gente, pensando justamente em como aquela situação era horrível e torcendo para nada me acontecer. Um tempo depois, senti alguém colocar a mão na minha coxa, duas vezes seguidas, bem rápido. Me afastei minimamente, olhei para o lado e vi o cara escroto que tinha feito isso, olhando bem na minha cara. Como eu reagi, ele tirou a mão e não tentou mais encostar em mim, mas eu senti um movimento repetido ali do meu lado.  Abaixei a cabeça e vi: ele estava se tocando, ali, por cima da calça. Quando olhei para cima, vi que ele ainda estava olhando pra minha cara. Consegui dar uns dois passos para o lado, fazendo com que uma outra pessoa ficasse entre nós, mas ele continuou me olhando e se tocando por todo o caminho. O detalhe? Para descer, eu tinha que passar por ele, encostar nele. Então não deu nem para descer na estação seguinte e pegar o próximo trem. Tive que ficar lá.  Me senti péssima, não só pelos motivos óbvios de ter sido assediada, mas porque não consegui reagir. Como mulher e feminista ativa, queria muito ter feito alguma coisa. Não deixo assédio verbal passar batido, não deixo ofensa machista passar batido, mas nesse caso eu simplesmente paralisei. Fiquei tão apavorada e horrorizada, que não consegui fazer nada.  Quando chegou minha estação, muita gente desceu, e por isso eu consegui descer sem passar por ele (mas olhando pra trás sem parar, para ver se ele tinha descido também!). Não consegui ver se ele tinha descido, e percorri todo o caminho (ligeiramente deserto!) da estação até o meu destino olhando para trás em desespero, com medo de ele estar me seguindo.   Passei o dia me sentindo péssima, horas em estado de choque, e não consegui falar sobre isso com ninguém além da minha namorada…”